A roupa como uma questão social

Mesmo que o juízo de gosto das pessoas em geral seja bastante diversificado, dadas as experiências particulares de cada um, o juízo de conhecimento, que se conceitua em ideias gerais sobre determinados estereótipos, é que se impõe como forte definidor das ações que temos em relação às pessoas que nos cercam. Essas atitudes reverberam em relação à segurança, onde o conceito de perigo/segurança que nós temos enraizado na nossa educação social está engessada em modelos antigos e preconceituosos que definem que a pessoa perigosa é o homem negro de classe baixa.

Entre idas e vindas pelo Centro de Fortaleza: mobilidade e segurança a partir da visão de um “centreiro”

Há cinco anos, o historiador e cineasta Luís Carlos Saldanha Ribeiro desenvolveu o hábito de andar pelo Centro de Fortaleza com um olhar mais apurado, buscando ver personagens, lugares e situações que passariam batido numa caminhada menos reflexiva e atenta. Segundo ele, não se tratavam apenas de caminhadas, mas de trabalhos orientados a partir daquele espaço como aulas de campo e trabalhos em audiovisual em que o Centro aparece como protagonista. Durante essas andanças, o termo flâneur surgiu a partir de leitura de autores como Charles Baudelaire, João do Rio e Walter Benjamin.
Aproveitando a semana de aniversário de Fortaleza, fizemos algumas perguntas ao “Centreiro” no Instagram relativas à violência urbana e à segurança pública no Centro de Fortaleza.

O desejo de guerrear como um delírio da violência da realidade na guerra

A retórica da guerra em tempos de paz é um desejo delirado de alguém delirante que é incapaz de viver em paz na realidade, quando a guerra delira o corpo e mente e o inconsciente, e suas máquinas desejantes, pulsa pela morte nas veias e no pensamento, e quando alguém já não se sente mais em segurança nem mesmo em casa. Tucídides, ao falar sobre as guerras entre os gregos antes da Guerra de Troia relatada por Homero em Ilíada, demonstra muito bem esse clima de insegurança vivido na realidade depois das guerras de pilhagem em que viviam os gregos.

“M8 – quando a morte socorre a vida”: a morte social retratada nas telas

O filme nacional “M8 – Quando a morte socorre a vida” conta a história de um recém-ingresso na faculdade de Medicina, que encontra o corpo M8 durante suas aulas iniciais de anatomia. Existe um mistério em torno da identidade de quem é aquele corpo, provocando diversas angústias e reflexões no protagonista. No transcorrer do filme é possível ver que existem diversos desdobramentos que se encaixam, envolvendo religiões afro-brasileiras, racismo e movimentos sociais liderados por mulheres negras.

Como o “nós e eles” divide o Brasil em um cenário de pandemia

Na obra “Como as democracias morrem”, algumas características nos ajudam a reconhecer líderes autoritários. Dentre elas ressaltamos o ataque a rivais partidários, encorajamento à violência contra aqueles que não compartilham de suas ideais, e, por fim, propensão a restringir liberdades, nesse caso a de expressão por parte da mídia. É possível notar não só o viés autoritário do governo federal como também sua propensão a dicotomizar e rivalizar, dividindo o cenário político e social entre “nós” e “eles”.

A cor dos (nossos) mortos

Quando o Estado omite a informação da raça do indivíduo morto, nega a ele o direito derradeiro a uma identidade pública. Trata-o como um qualquer. Pior: nega aos que ainda estão vivos e são da mesma cor a chance de implementação de uma política efetiva de inclusão, já que não há como discutir política pública, não importa qual o âmbito em questão, desconsiderando a etnia. Pois é ela, a raça/etnia, um traço de identidade que define o destino de muitos indivíduos. Se o é em vida, que o seja em morte.

Em um futuro não tão distante uma distopia familiar: o fim do SUS e a barbárie

O Brasil parece retornar a lembrança de 1953 – saúde pública enfraquecida, a negação das comunidades e dos vínculos, mas com a diferença de que somos agora pouco mais de 212 milhões de habitantes. Somos um país em que as taxas de desemprego e violência crescem infladas pelo descaso com a educação, a saúde e o entendimento que todo brasileiro é sujeito de direitos. O projeto político em que estamos inseridos sacrifica todos os dias milhares de vidas. O desmonte do SUS e suas repercussões só podem levar a um fim: a barbárie.

Declaração de guerra e o excesso de violência legitimado

Quando se declara guerra se chegou a uma situação limite de violência, quando a opressão a quem e o que somos ou à identidade se tornou intolerável. É em defesa de uma identidade em geral que se declara guerra quando a violência a ela chega ao que se considera um limite. Neste sentido, a declaração de guerra é uma declaração de que a violência chegou ou deve chegar ao limite, deve ser limitada. O paradoxo teórico e prático em relação a isto é óbvio, pois se busca com a guerra limitar a violência senão com mais violência.

A vacina e os “fura-filas” sob o olhar do pensamento social brasileiro

Seja qual for a maneira, notamos que uma das características mais enfáticas em relação ao brasileiro é referente a sua capacidade de constituir vínculos afetivos por meio das relações sociais e utilizá-las de modo a burlar a lei. Isso se dá devido a outras marcas de nossa identidade que são a dificuldade de reconhecer os limites do público e do privado, bem como nossa pouca afeição às leis e a res pública como diria Frei Vicente de Salvador. Assim, se por um lado nos surpreendemos com as muitas formas de subversão, como no caso dos fura-fila na vacinação no Brasil, por outro, tendemos a banalizar e naturalizar essas atitudes, pois, conseguimos enxergá-las como marcas de nossa personalidade.