As marcas e os traumas dos nossos conflitos cotidianos

As cenas delirantes de uma guerra, literária ou cinematográfica, estão diretamente ligadas às marcas que a guerra deixa nos corpos. Não são só os guerreiros que são marcados pela guerra. Todos que a vivenciam de longe também. Uma guerra marca a todos com seu medo, terror e horror dos quais poucos conseguem escapar. Somente algumas marcas são percebidas na superfície do corpo, pois a maioria o marca profundamente, atingindo os nervos sem deixar marcas na pele fazendo aquele que é marcado sentir uma “sensação” inesquecível, mesmo que nunca tenha lutado numa guerra. É sobre estas marcas de guerra que trataremos hoje, vendo como os delírios de guerra na literatura e nas palavras perpassam outras artes se tornando imagens produzindo sensações em nossos corpos ainda hoje, mesmo depois das guerras terem acabado há tanto tempo, e não vivermos em guerra na realidade, só retoricamente.

Por Jean Pierre

Quando Homero escreveu Ilíada no século VIII a.C., já fazia vários séculos que a guerra tinha acabado, por volta de 1200 a.C. Não tendo sido documentada por escrito até então tudo que se sabia sobre a guerra de Troia era apenas por meio do relato oral e não se tinha certeza do que aconteceu, se aconteceu tudo que Homero relatou e nem mesmo se aconteceu a guerra de fato, se não era apenas uma criação literária a partir das Musas inspiradoras do poeta. Tendo acontecido ou não, se é uma ficção literária ou fato histórico, é inegável que a guerra dos gregos contra troianos deixou marcas indeléveis antes e depois de Homero e produz uma sensação até hoje em todos que tomam conhecimento dela mesmo não a tendo vivido e tão pouco seja grego.

Não é preciso estar no conflito de uma batalha de guerra para ter essa sensação como uma marca em seu corpo. Homero não participou da guerra de Troia, mas viveu outras parecidas como a de seu povo Egeu dominado pelos aqueus que fundariam a Grécia antiga. (1) Cada um de nós tem marcas de violência de algum momento da vida quando algo ou alguém se impôs nos pondo em conflito, fazendo-nos batalhar pela vida, sobreviver à morte iminente, mesmo que seja uma morte só imaginada a partir de um ato de violência momentâneo como um grito mais alto, uma humilhação etnocêntrica, racial, de classe social, sexual, de gênero ou de bullying. É uma sensação de medodiante de um ato que nos atemoriza e nos deixa horrorizado imaginando a morte e que marca nosso corpo pelo resto da vida mesmo que não tenha acontecido.

Do relato oral à tela grande: a história da Guerra de Tróia mantém seu fascínio até hoje

A sensação de estar em conflito na batalha de uma guerra não é muito diferente da sensação de estar num conflito cotidiano atualmente diante de um vírus pandêmico que já deixou milhares de mortos e diante dos milhares de assassinatos registrados por ano em conflitos de facções, da polícia militar contra facções e contra a população, bem como diante de conflitos étnicos, raciais, de classes sociais, sexuais e de gênero. Não é muito diferente de estar diante de cenas de conflito, batalha e guerra descritas em livros e no cinema. O que difere é o nível da sensação de violência e das marcas que deixam em nós. Algumas sensações-marcas são imperceptíveis no momento em que acontece a violência, porém, podem retornar anos depois em traumas, como dizem os psicanalistas, somatizando-se com outras durante o tempo até chegar o momento em que sofremos o trauma de fato, como um osso ou ligamento que de tanto esforço já não aguenta mais e se esfacela e rompe.

É o que acontece quando lemos um livro e à medida em que a leitura transcorre vamos tendo uma sensação até sermos traumatizados e choramos de dor com um sofrimento imperceptível acumulado ao longo de páginas em palavras que nos fizeram ter uma sensação de medo e violência e o corpo irromper em gritos e lágrimas incontidas. É o que acontece no cinema diante de cenas que se tornam cada vez mais dramáticas, isto é, causam cada vez mais a sensação de que algo está acontecendo na realidade e não simplesmente na tela, pois o que era apenas uma imagem figurativa que representa um objeto passa a se referir diretamente a um objeto e se torna um objeto real, quando o personagem deixa de ser uma imagem para ser uma representação da realidade e alguém que não queremos que sofra e morra.

Se sentimos isso diante de palavras e de uma imagem cinematográfica é porque o que vemos está nos causando esta violência. Não é apenas o outro que sofre como um personagem fictício visto como real, somos nós. É a literatura e o cinema que nos fazem sofrer, ser violentado, deixando marcas ao nos fazer ter uma sensação de medo com suas palavras e imagens. Não é um delírio por confundir o fictício com o real, o livro e o filme com a realidade, é um delírio diante da sensação de uma violência real que sentimos diante do fictício na realidade. Ou seja, a ficção produzida pelas palavras e imagens violenta-nos e não conseguimos mais ler e ver imagens sem a sensação de violência.

“Três estudos para o retrato de George Dyer (em solo claro)”, uma pintura de Francis Bacon

As marcas de guerra não são produzidas somente pela guerra. Elas se reproduzem para além da guerra quando esta é representada pela literatura e cinema, mas também pela pintura, esta última como uma passagem do literário ao virtual por meio do visual. É o que podemos dizer a partir de Deleuze quando analisa uma lógica da sensação presente nas pinturas de Francis Bacon sobre o qual diz que pinta a sensação em vez pintar uma representação, porque faz a pintura produzir uma sensação naquele que a visualiza em vez de buscar representar uma realidade e, deste modo, estabelece uma dualidade na pintura ao pintar a sensação e registrar o fato. Uma sensação única, mas que não é uma sensação apenas, pois, diz Deleuze: “Toda sensação, e toda Figura [marca] já é uma sensação ‘acumulada’, ‘coagulada’, como em figura de calcário.” Uma sensação-marca advém, portanto, de muitas sensações que se solidificam até chegar o grito, quando “Todos os corpos escapam [ou buscam escapar] pela boca que grita.” (2)

Se as palavras que descrevem uma guerra na literatura e as imagens de guerra em filmes produzem tanto uma sensação de medo, terror e horror é porque nos violentam e deixam marcas que fazem o corpo gritar e chorar realmente, pois sabe que não são simplesmente fictícias, é uma realidade. E é uma realidade ainda mais para aqueles que vivem semelhante aos que vivem em guerra real, com os nervos à flor da pele, pois o cotidiano de conflito deixa marcas de violência como na guerra, violenta-nos e nos mata aos poucos com traumas profundos até a morte iminente. Ou seja, as marcas de guerra são vivenciadas por nós mesmo que não vivamos numa guerra de verdade, mas outros querem que vivamos, em constante retórica de guerra de uns contra os outros ao criarem inimigos fictícios que se tornam reais para nos traumatizar e traumatizar ainda mais com palavras e imagens aqueles que já vivem em conflito devido à violência cotidiana.

Quem estimula a guerra com palavras e imagens numa retórica de guerra quer que a guerra se reproduza, isto é, quer que a guerra produzida em algum momento seja produzida novamente. Se a literatura e o cinema reproduzem a guerra como arte não é, porém, para que a guerra retorne, e sim, o contrário. Mas também a arte com suas palavras e imagens pode ser utilizada para recriar a guerra deixando marcas de uma violência que se torna inesquecível e é preciso estarmos conscientes disso evitando produzindo mais marcas de guerra.

Sobre a Imagem. Três estudos para uma crucificação, de Francis Bacon.

(1) Em A aurora da filosofia grega, John Burnet demonstra como Homero nomeia os deuses com nomes egeus ao falar ainda a língua de seu antigo povo, notadamente os nomes de Aquiles e Odisseu, os dois personagens principais respectivamente de seus livros Ilíada e Odisseia, ainda que diga que Homero cantou para as cortes de príncipes aqueus.

(2) DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: lógica da sensação. Rio de Janeiro: Zahar,2007. Trad. Roberto Machado e outros. Uma tradução de Silvio Ferraz e Annita Costa Malufe, sem revisão, pode ser lida no seguinte endereço <https://drive.google.com/file/d/17H-np_1_kPjYic2b48gwYDGQ32zxgXCb/view?usp=sharing>

Mais textos de Jean Pierre no Blog Escrivaninha:

Homero: o precursor da glorificação estética da violência na guerra

O desejo de guerrear como um delírio da violência da realidade na guerra

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE.

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