Homero: o precursor da glorificação estética da violência na guerra

Quando deliramos a violência numa guerra ou no cotidiano, é difícil depor as armas, querer se desfazer delas, abdicar da força armada, para estabelecer uma relação com o outro de modo diferente, sem que seja pela inimizade. Há muito tempo somos educados pela violência e a delirar com ela em todo lugar e é preciso aprender a pensar diferente, racionalmente. Neste texto, analisamos como isso é possível, por meio da arte e da filosofia dando início a uma perspectiva de mudança de hábito quanto à violência em nosso cotidiano.

Por Jean Pierre

A Ilíada, de Homero, não é somente o primeiro livro literário de que se tem conhecimento, é o primeiro a retratar uma guerra e de um modo já cinematográfico, pode-se dizer, pois se o que define o cinema é o corte de um movimento numa imagem criando uma “imagem-movimento” ou “cena” cinematográfica como diz Deleuze, Homero foi o primeiro a fazer isso ao descrever o movimento guerreiro em batalha em cenas épicas. E sabemos o quanto o cinema deve à literatura, não apenas na narrativa, assim como deve às outras artes, pois é um agenciamento maquínico de todas elas.

Homero definiu a literatura, assim como aquilo que é “épico”, como um momento no tempo que define o próprio tempo a partir da intensidade de um momento como uma “época”. Mais ainda, transformou um momento singular, único, em “homérico”, um acontecimento grandioso, no caso, os feitos heroicos na guerra. Mas Homero nunca esteve numa guerra e sua obra se passa muito tempo depois da Guerra de Troia que ele cria literalmente através da literatura, da qual nunca se terá conhecimento de fato de como foi, pois não há relatos dos fatos em geral além dos dele. No máximo pode-se confirmar ou negar o que Homero diz, mas não contradizê-lo e dizer literalmente que estava mentindo, afinal, o poeta não pretendia descrever a guerra de fato.

O autor de A Ilíada foi o primeiro a mostrar a guerra em todos os seus aspectos com cenas de violência em descrições minuciosas que fazem qualquer pessoa delirar com a guerra e cineastas aprenderem com ele como criar cenas de guerra. Não é incomum “vermos” o sangue escorrer pelas páginas quando uma lança atravessa uma parte do corpo, uma espada decepar um braço “que caiu ensanguentado por terra; e sobre os seus olhos caíram a morte purpúrea e o destino ingente.” Vermos a descrição de famílias destruídas, com pais sem filhos, filhos sem pais, pois morreram em outras guerras. Vermos o incentivo à violência em nome da honra na batalha feito pelos comandantes e o delírio das ações dos guerreiros que se tornam deuses à medida que o combate aumenta em intensidade, ao ponto de alguns guerreiros recuarem por verem no oponente o próprio deus guerreando contra eles como Ares, Apolo ou Atena, seja apoiando os “Dânaos” seja os “Troianos” [1].

Homero foi, neste sentido, o primeiro a nos fazer delirar com as cenas violência de uma guerra sem estarmos nela e a desejarmos estar nela guerreando em defesa de um povo. Não por acaso se tornou um educador da aristocracia guerreira que dominava à época por meio do poder da violência militar, forçando todos a obedecer às ordens militares e serem educados para serem militares como em Esparta. Não por acaso, o poeta passou também a ser criticado pelos filósofos, e principalmente por Platão, quando Atenas se tornou uma democracia e o povo retirou o poder das mãos dos militares aristocráticos oligarcas que a dominavam e a não valorizar os atos guerreiros, os feitos de guerra. E, em contrapartida, passou a valorizar, ainda que de modo restrito, o poder da “palavra”, do “discurso”, do “pensamento”, o “lugar de fala” de cada um, o direito de se expressar em público sem ser censurado pela violência militar, o direito de ouvir o outro, o diferente, o direito de não impor sigilo ao que pensa, ao que faz, ao que deixa de fazer, o direito de “dizer a verdade”, isto é, a verdade do que pensa sem ter que mentir para permanecer vivo, ou empregado, direito de poder se opor sem que esteja numa guerra e desejar violentar, torturar e matar o outro, metralhar os oponentes…

A democracia não é apenas o governo do povo, é também de um povo que não delira mais com cenas de guerra, que não deseja a violência em seu cotidiano, nem mesmo nas belas palavras de Homero com que os políticos enfeitam seus discursos como “sofistas”, “sábios ignorantes”, sem nada saberem. A democracia é um governo no qual as decisões são racionais, em que o povo não age com violência para resolver seus problemas, mas com prudência e moderação, não age por ímpeto de matar o outro impulsionado por um deus ou como um deus, mas, por uma diminuição da vontade de matar não vendo mais o outro e o diferente como “inimigo” e, sim, como “amigo” ainda que rival como pensa Platão e os atenienses.

O regime democrático também não é o governo de pessoas delirantes com a violência, que anseiam por armas para violentar em nome de uma defesa pessoal, a antiga honra, de pessoas que assistem à violência na televisão constantemente aprendendo e ensinando que somente se resolve os problemas com violência. Se Atenas perdeu a guerra para Esparta por abdicar do espírito guerreiro e ser dominada por uma ditadura militar, ela não deixou de ser democrática e, com sua filosofia, ensinar que não é só a violência que produz feitos épicos, o diálogo também e muito mais.

“Na verdade, és antigo amigo da casa de meu pai!
(…)
Evitemos pois a lança um do outro por entre esta multidão.
Há muitos Troianos e seus famigerados aliados para eu matar:
aquele que o deus me proporcionar e que eu alcançar com os pés;
e há muitos Aqueus para tu matares – aquele que fores capaz.
Mas troquemos agora as nossas armaduras, para que até estes
aqui saibam que amigos paternos declaramos ser um do outro.’
Depois que assim falaram, ambos saltaram dos carros:
apertaram as mãos e juraram ser fiéis amigos”

O fim da inimizade é o fim dos delírios de guerra e, consequentemente, o início da democracia quando cada cidadão se vê como amigo, apesar das rivalidades, depondo as armas em vez de empunhá-las em defesa um contra o outro.

1.Como observa o historiador grego Tucídides, não existia ainda o povo “Grego” em Homero, mas uma união de povos que se aliaram aos Aqueus para guerrear contra os Troianos, que também tinham outros povos como aliados.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE.

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