O racismo por trás de nossos espelhos

Resenha do filme documentário “Além do Espelho”, dirigido por Ana Flauzina, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autora do livro: Corpo Negro caído no chão: o sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro demonstra como a obra cinematográfica promove o encontro de duas grandes vozes do movimento negro, o jornalista Edson Cardoso e o cineasta etíope Haile Gerima.

Por Natália Pinto Costa

A narrativa construída no transcorrer do documentário é justamente conectar esses dois homens e demostrar como o racismo opera sobre diversas facetas, desde a tentativa de “gentrificação” da memória, a morte social até enfim desaguar na morte física dos negros e como tudo isso irá moldar suas experiências e relações, apontando para possíveis superações dessas implicações.

Logo nos minutos iniciais, Edson Cardoso declara: “O racismo não é apenas negar o salário devido, racismo não é apenas você impedir que a pessoa tenha acesso a saneamento básico, essa é uma dimensão terrível do racismo, mas ainda não é todo o racismo. O racismo é dizer e além do mais não são humanos como nós somos, por isso lhes cabe essa parte de tudo, esta ínfima parte de tudo”. Enquanto Haile dirá “Não só o que conecta os negros entre si, mas o que conecta os negros à humanidade é a resistência. A resistência é universal aos seres humanos”.

A partir dessas afirmações eles começam discussões com muitas provocações para causar incômodos e levar a reflexões sobre o ativismo negro, como existe uma cultura que autoriza matar esses corpos e que essa violência que é sofrida não se limita apenas a atuação policial, mas que existe toda uma estrutura que amolda o pensamento de que tudo isto é “natural”, desde o papel da mídia como outras práticas sociais do cotidiano. Essa violência social que é sofrida ocorre, portanto, em todos os âmbitos da vida, seja eles econômico, politico ou psicológico, seja ela direta ou indireta, como pontua Muniz Sodré (1992).

A luta contra o racismo interliga as experiências de vida de Haile Gerima e Edson Cardoso

Entre as interligações das experiências de Edson Cardoso no Brasil exercendo o jornalismo e Haile Gerima, cineasta etíope vivendo nos Estados Unidos, ao longo da exposição de ambos é possível notar que as dificuldades do próprio racismo os levaram a integrar o movimento e ativismo negro como forma de luta que vai para além do plano individual, nas próprias palavras de Edson Cardoso “Tem um momento que você percebe plenamente que não há nada mais importante no mundo para fazer, essa que é a verdade. Há uma hora que você se dá conta que viver é fazer isso, porque se não for lutar contra o racismo a vida não tem sentido, pelo menos aqui nesse país”.

No meio de tantas imbricações e instigações, como por exemplo, a memória com arma, a crítica às experiências brancas como universais, as ações afirmativas, educação, entre os vários debates e pontos levantados no transcorrer do documentário se pretende destacar as diversas críticas aos veículos de comunicação e a indústria cinematográfica.

As críticas aos veículos de comunicação vão desde a ausência de negros no Brasil nos roteiros, direções, nas narrativas das histórias, nas décadas de 60 e 70, na concepção de Haile isto reduziu as perspectivas de diversificar as concepções de raça no país, deixando claro o cineasta que esta é sua opinião de quem está analisando de fora e tendo como enfoque apenas a produção cinematográfica e que isto também é uma dificuldade nos EUA, isto é, produzir narrativas em que os negros sejam empoderados ou discorrer sobre eventos históricos e a representação negra na América.

Que por exemplo nos Estados Unidos tem-se o filme Roots, que não é sobre os negros e sim sobre a agonia de bons liberais brancos e que algo semelhante se tem no Brasil com o filme Cidade de Deus, para o cineasta, essa obra é produzida por brancos liberais para manipular e incorporassem como mediadores de cultura, ponderando o que deve ser discursado e quais filmes devem ser feitos.

Em ambos os filmes se tem a operação de estereótipos, personagens negros estúpidos, “pessoas negras irrecuperáveis”. Existe uma agenda cinematográfica que perpetua a imagem de que dentro dos espaços de “gueto” onde essas produções são passadas, tanto no Brasil como no EUA, é espaço apenas de assassinatos, entretanto, esquece-se de mostrar nesses filmes que a periferia é também local de vida, luta e podem ser também espaços de cultura.

O documentário, de 52 minutos, pode ser assistido no link acima

Edson vai além e ainda pontua que os meios de comunicação não são racistas apenas quando tematizam os negros por estereótipos, mas também quando deixam espaços ausentes onde esses poderiam ocupar e que isto os desumaniza e essas são as lições que as pessoas aprendem ao consumir esses conteúdos e que é preciso ver o impacto disso no mercado de trabalho, nas abordagens policiais.

O jornalista ainda acrescenta como as produções cinematográficas que abordam temas como violência policial, corrupção, segurança pública, vide o filme “Tropa de Elite”, não mostram a perspectiva dos negros e que se encontram ausentes filmes que mostrem o protagonismo das mães negras que podem relatar como é que sistematicamente elas sofrem em decorrência das vidas ceifadas de seus filhos, que transformam seus lutos em lutas, que enfrentam a letalidade policial, que as produções são todas feitas sob uma ótica branca em que os negros são retratados ou matando ou morrendo.

Essa lógica de desumanização e de tentar encaixar os negros dentro do perfil de que  “matam ou são matáveis” se operacionaliza também dentro do editorial dos meios de comunicação de massa, quando, por exemplo, ao retratar a chacina que ocorreu no Jacarezinho no dia 08 de Maio de 2021 o G1 coloca em sua manchete: “Lista de mortos no Jacarezinho: 25 tinham ficha criminal e há provas contra os outros 2, diz polícia” ou o Estadão, com “ Um terço dos mortos no Jacarezinho não tem ação criminal no TJ do Rio”.

Nota-se, portanto, que o enfoque não é mais o fato de que em meio à pandemia da Covid-19, ocorreu uma operação policial que era contrária uma decisão judicial do Supremo Tribunal Federal (STF) em sede de Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) e que resultou em 25 mortes, os olhos se voltam apenas para uma tentativa de justificar toda essa violência, de tentar classificar os corpos em matáveis e desrespeitar as famílias enlutadas deixando a discussão da letalidade policial em segundo plano.

Vítimas que precisam ser justificadas

Essas classificações e justificativas ocorreram também com Marcos Vinicius, adolescente de 14 anos, que foi baleado durante uma Operação da Maré, em 2018. Antes do seu falecimento, ele questionou: “Ele não me viu com a roupa de escola?”. O avô de Ágatha Felix, 8 anos – a menina que estava com sua mãe em uma Kombi, no Complexo do Alemão, quando foi atingida e morta, em setembro de 2019 – comenta: “A arma que ela gostava de usar era lápis, caderno e redação nota 10”.

Ou seja, os meios de comunicação submetem os enlutados à violência de precisarem justificar que seus entes queridos não tinham nenhum envolvimento com qualquer atividade criminosa. Quando possuem antecedentes, essas mortes passam a não ser mais passíveis de indignação, pois se está matando “bandido”, fazendo uma clara distinção entre os que são “cidadãos” e os “inimigos”, portanto, nesses casos nota-se que existe tanto uma morte física, como uma social.

Esses exemplos foram colocados para endossar alguns dos questionamentos do documentário Além do Espelho: a forma como os meios de comunicação de massa, assim como obras cinematográficas criam dispositivos que visibilizam os negros de maneira essencialmente negativa, organizando no imaginário social justificativas onde todas essas violências são naturalizadas.

Nesse sentido, apesar das críticas aos meios de comunicação e ao racismo, o documentário vai mostrar a potência do encontro dessas duas vozes e como é possível construir novas perspectivas de lutas e sobre como é necessário ter um olhar atento às produções que consumimos e quais são os discursos e narrativas por detrás deles. Entretanto, para além de minhas palavras é necessário parar, apertar o play e aprender escutando os próprios Edson Cardoso e Haile Gerima e assim ter outras dimensões do que é resistir.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS

FLAUZINA, Ana; PIRES, Thula (org). Rebelião. Brasilia: Brado Negro, Nirema, 2020, 305p. Disponível em: http://bradonegro.com/Rebeliao.pdf.

SODRÉ, Muniz. O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia. Cortez Editora, 1992.

MÃE de jovem morto no Rio: “É um Estado doente que mata criança com roupa de escola”, EL PAÍS, Brasil, 2018. Disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/22/politica/1529618951_552574.html.

“UM terço dos mortos no Jacarezinho não tem ação criminal no TJ do Rio”. O ESTADO DE S.PAULO, Brasil, 2021. Disponível em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/rio-de-janeiro,um-terco-dos-mortos-no-jacarezinho-nao-tem-acao-criminal-do-tj-do-rio,70003709217

LISTA de mortos no Jacarezinho: 25 tinham ficha criminal e há provas contra os outros 2, diz polícia, G1, Brasil, 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/05/08/veja-a-lista-de-mortos-na-operacao-do-jacarezinho.ghtml.

Natália Pinto Costa

Graduada em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), pós graduada em Direito e Processo Penal pelo Centro Universitário Unicristhus. Mestranda no Programa de Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Advogada.

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