“M8 – quando a morte socorre a vida”: a morte social retratada nas telas

Por Natália Pinto Costa

O filme nacional M8 – Quando a morte socorre a vida conta a história de Murilo (Juan Paiva), recém-ingresso na faculdade de Medicina, que encontra o corpo M8 durante suas aulas iniciais de anatomia. O cadáver será analisado por ele e seus colegas de classe ao longo do semestre. Entretanto, existe um mistério em torno da identidade de quem é aquele corpo, provocando diversas angústias e reflexões no protagonista.

No transcorrer do filme é possível ver que existem diversos desdobramentos que se encaixam e vão contornando a temática principal da proposta narrativa da obra áudio visual, que envolve religiões afro-brasileiras, racismo, movimentos sociais liderados por mulheres negras, entre outros. Incialmente irá se pontuar o fato de Murilo ser o único negro na sua turma e acabar se identificando mais com os corpos daqueles que estão sendo analisados do que com seus colegas de classe.

Neste ponto, é necessário pontuar algumas reflexões que podem ser provocadas, primeiro em como o Murilo não é identificado como aluno por um dos seus colegas de classe, personagem este que no transcorrer do filme vai demostrar diversas outras atitudes extremante problemáticas e racistas, mas desta cena específica é possível ver como apenas a existência do protagonista naquela classe é incômodo, que aquele lugar de aluno de medicina não é reconhecido por alguns, a ponto de ele ser confundido como funcionário da faculdade por este colega.

Aqui, pode-se pegar emprestado algumas das reflexões de Thula Pires (2017, p. 557) que irá descrever como aos negros são negados as suas subjetividades e reforçados estereótipos de vulnerabilidade e subalternização e como esses processos são violentos e que tem ligação direta com o fato do indivíduo em abstrato ter como sujeito universal a branquitude, a ponto de torna-se uma racialidade não nomeada. Ou seja, a branquitude é um lugar estrutural que permite ao sujeito branco atribuir sempre aos outro aquilo que não atribui a si mesmo, o tendo como parâmetro universal, como a autora discorre e já mencionado aqui.

Utilizando-se das cenas da obra ficcional novamente para reforçar este ponto, quando Murilo acerta alguma incisão conforme as orientações do seu professor, este mesmo colega faz questão de mencionar em como o personagem agora pode ser açougueiro, tentando assim o subalternizar e reforçar mais uma vez que aquela sala de aula e profissão não é para o protagonista.

Voltando novamente para a identificação do Murilo com o M8 e os outros corpos mortos daquela aula de anatomia, cabe aqui começar uma discussão, ainda que breve, sobre os corpos que são matáveis no Brasil e os discursos de falta em torno deles. Para fazer uma comparação, apesar de o protagonista esta vivo, existe em torno dele todo um apagamento e um discurso de falta, o que é mostrando no filme com cenas que deixam explicito que todos seus colegas possuem carros, enquanto ele tem que andar de ônibus e levar marmita para a faculdade, o que possivelmente é a tentativa de construção de vulnerabilidade em torno do personagem.

E sobre essas relações de vulnerabilidade e discursos de falta e morte social, é necessário se utilizar de Rômulo Fonseca (2016, p. 37) que irá discorrer sobre o apagamento dos jovens negros antes de suas mortes. Como a imagem de pobreza, violência e periculosidade que são vinculadas a determinados espaços, reforçam no imaginário popular que as periferias são possíveis campos de concentração, centros de perigos e que são justificáveis políticas públicas e controle punitivo que ocasiona em tanto sangue e balas disparadas.

Sobre morte social, nota-se, por exemplo, como ao buscar identificação sobre quem é o M8, diversos personagens reforçam que aquele corpo é de um “indignente” logo, não vale a pena à investigação de quem ele era, ou de quem é sua família o que coaduna com o pensamento de Maíra Brito (2020) na obra organizada por Ana Flauzina e Thula Pires, ao falar sobre a juventude negra e suas mortes, desenvolve que em torno dos corpos dos homens negros existe toda uma construção de corpos que são violentos e logo são consideráveis mais “matáveis” e que existe um sistema de segurança pública que reserva aos que são “fora da lei” uma sentença de morte, quase os transformando em animais passíveis de abate. Menciona-se este ponto, pois o corpo do M8 foi classificado como esse que pode ser “matável” logo não cabia empatia a ele, ou melhor, só cabia a morte sem questionamento.

Murilo estampa o cartaz do filme, que retrata como o racismo atinge corpos negros vivos e até mesmo mortos

Como já pontuado, o filme tem diversos outros desdobramentos, que envolve religião, até relacionamentos inter-raciais e outros pontos, porém, optou-se em apenas mencionar algumas reflexões a partir sobre determinadas cenas, apesar de ter diversas outras que podem ser problematizadas, por exemplo, quando o Murilo é parado pela policia, mas não mencionaremos em decorrência de este ser um curto artigo.

Encaminhando-se ao final desta análise, destacamos o movimento de mulheres, mães enlutadas retratadas no filme. Murilo irá se deparar com o protesto de mães, em sua maioria negra, protestando para acharem os corpos de seus filhos. Sobre isto, tem-se, por exemplo, o trabalho de Leticia Sampaio (2018) que ao pesquisar especificamente a situação das mães das vítimas da chacina de Messejana em 2015 discorrerá como as mães ao “enfrentar” a violência sob o corpos de seus filhos acabam transformando seus lutos em luta.

Apesar de serem regiões diferentes e contextos diferentes, o que aconteceu na cidade Fortaleza, no bairro de Messejana comparado a situação do filme são semelhantes, desde as dores como as estratégias de sobrevivência e luta por estas mães também. Por fim, fazendo empréstimo agora das reflexões de Ana Flauzina (2008), ela irá pontuar como existem dilemas que as mulheres brancas não enfrentam em sua grande maioria, em suas próprias palavras:

 Afinal, como se encontram as mulheres que estão diuturnamente vendo seus filhos e maridos sendo ostensivamente agredidos e assassinados? Que tipos de retorno, em termos de indenização e assistência o Estado deve a essas mulheres, negras em sua maioria, que tem que cuidar de seus filhos sozinhas em função da violência do sistema penal?

Deixam-se estas perguntas para reflexão e provocação. Por fim, conclui-se que pensar em segurança pública, é também refletir sobre educação, racismo e antirracismo, quais corpos são matáveis ou não, feminismo e as razões de sempre as mães, mulheres negras carregarem consigo as dores de luto- entre outras dores que a personagem Cida (Mariana Nunes) retratou bem com seu personagem- ao mesmo tempo em que sofrem com os outros desdobramentos do sistema penal. Esta é uma luta coletiva, é oportuno refletir e ouvir todas as vozes, principalmente daqueles que sofrem com estas violências.

O filme M8 tem diversos outros pontos de problematizações e reflexões, entretanto, como já dito, se optaram por pontos específicos para facilitar a análise. A obra é um bom ponto de partida para pensar como todos esses desdobramentos estão interligados, então a resposta e a construção de possíveis projetos devem ter esta interdisciplinaridade também.

Referências

FLAUZINA, Ana; PIRES, Thula (org). Rebelião. Brasilia: Brado Negro, Nirema, 2020, 305p. Disponível em: http://bradonegro.com/Rebeliao.pdf.

FLAUZINA, Ana Luiza Pinheiro. Corpo negro caído no chão: O sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro. Rio de Janeiro: Contraponto. 2008

MORAIS, Romulo Fonseca. O extermínio da juventude popular no Brasil: uma análise sobre os “discursos que matam”. 2016. 185 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Pará, Instituto de Ciências Jurídicas, Belém, 2016. Programa de Pós-Graduação em Direito

PEQUENO, Letícia Sampaio. Tempo de luto, hora de luta: sofrimento e resistência das mães de adolescentes vítimas da chacina de Messejana em Fortaleza/Ce. 2018. 172 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico ou Profissional em 2018) – Universidade Estadual do Ceará, , 2018. Disponível em: http://siduece.uece.br/siduece/trabalhoAcademicoPublico.jsf?id=84262

PIRES, T. R. O.. Criminologia crítica e pacto narcísico: por uma crítica criminológica apreensível em pretuguês. REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS CRIMINAIS, v. 135, p. 541-562, 2017.

Natália Pinto Costa

Graduada em Direito pela Universidade de Fortaleza (Unifor), advogada, pós-graduada em Direito e Processo Penal pelo Centro Universitário Unicristhus.

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