O desejo de guerrear como um delírio da violência da realidade na guerra

Por Jean Pierre

Quando falamos em guerra, já não estamos em paz, e buscamos muitas vezes a paz na guerra. No último texto, foi colocado em questão por que preferimos a guerra em vez da paz. Em geral, a paz é associada a um período de calmaria, sono tranquilo, sem muitos sobressaltos, sem o entorpecimento do corpo e da mente quando a realidade que é vista como “normal”. A guerra, por sua vez, é o oposto disso, um período de agitação, pesadelos, sobressaltos, entorpecimento do corpo e um olhar delirante na realidade.

Na guerra, há um delírio da realidade. Não que a guerra seja um delírio. O delírio vem antes e depois da guerra. Antes, o delírio de guerra é um desejo de guerrear, de pegar em armas, de ir para a batalha, de matar os inimigos, de defender o povo, o Estado, a nação. O desejo de guerrear é um delírio da violência da realidade na guerra. Em vez de ser um escapismo da realidade, é uma ampliação da realidade aos olhos fascinados pela guerra, pela boca que só fala em guerra e pelos ouvidos que só ouvem o som dos tiros, isto é, o barulho das máquinas desejantes de guerra. É uma intensificação do corpo que delira pensando na guerra, pois como dizem Deleuze e Guattari em O anti-Édipo, o delírio é da ordem do pensamento e não da alucinação.O delírio é o pensamento de ir para a guerra na realidade, saciar o desejo de guerrear, a pulsão de morte para além do princípio de prazer,gozar rápido ejaculando tiros. A guerra é uma realidade delirante de violência.

Depois, o delírio de guerra é o desejo de guerrear quando a guerra acaba, e vem a paz não como oposto da guerra, mas diferente dela, quando o desejo de guerrear é reprimido na realidade e a guerra faz o corpo delirar na realidade não mais em guerra. Há uma dissociação do corpo e da mente com a realidade, seguida de uma predominância da vida interior e o delírio propriamente dito como corte com a realidade, isto é, sua negação, negando a paz nela, desejando-se novamente a guerra, recriar a guerra na realidade, transformar o mundo, ora em paz, novamente num mundo em guerra. A guerra se torna então uma diminuição da realidade aos olhos ainda fascinados pela guerra, pela boca que ainda só fala em guerra e ouvidos que ainda ouvem os tiros das máquinas desejantes de guerra agora como barulhos na realidade não mais em guerra. A guerra se torna uma realidade delirada pelo delirante de violência.

A retórica da guerra em tempos de paz é um desejo delirado de alguém delirante que é incapaz de viver em paz na realidade, quando a guerra delira o corpo e mente e o inconsciente, e suas máquinas desejantes, pulsa pela morte nas veias e no pensamento, e quando alguém já não se sente mais em segurança nem mesmo em casa. Tucídides, ao falar sobre as guerras entre os gregos antes da Guerra de Troia relatada por Homero em Ilíada, demonstra muito bem esse clima de insegurança vivido na realidade depois das guerras de pilhagem em que viviam os gregos: “o costume daqueles povos continentais de portar armas é uma sobrevivência de seus antigos hábitos de pilhagem. Na realidade, todos os helenos costumavam portar armas, porque os lugares onde viviam não eram protegidos e os contatos entre eles eram arriscados; por isto em sua vida cotidiana eles normalmente andavam armados, tal como ainda fazem os bárbaros.” Em contrapartida, contrário a este hábito bárbaro, diz em seguida: “Os atenienses, todavia, estavam entre os primeiros a desfazer-se de suas armas e, adotando um modo de vida mais ameno, mudaram para uma existência mais refinada.” (TUCÍDIDES, História da Guerra do Peloponeso, p. 4)

A passagem do hábito“bárbaro” grego adquirido nas guerras de pilhagem para o hábito “refinado”, quando os gregos adotaram um “modo de vida mais ameno” acontece decisivamente, segundo Tucídides, quando os gregos se uniram numa “iniciativa conjunta” contra Troia e a pólis deixou de ser uma “cidade” isolada em guerra com outras e se tornou parte de um Estado, uma cidade-Estado  propriamente grega ou helênica. Mais ainda, quando, para fazer parte dessa cidade-Estado, devia-se se desfazer das armas, haver um desarmamento da população, e não se podia mais delirar com a guerra. Pode-se dizer que 10 anos de guerra dos gregos com os troianos fizeram não apenas os gregos se unirem, fizeram também pensarem no desejo de guerrear deles, principalmente em Atenas, fazendo surgir, então, a democracia e um desejo de paz entre os gregos na realidade.

O desejo de paz democrática não quer dizer fim da violência, pois esta permanece. É o desejo de não guerrear até a morte de modo delirante e de ser capaz de viver na realidade sem guerra. Aquiles demonstra o desejo de guerrear não por ser um bravo guerreiro, mas por sua pulsão de morte para além do princípio de prazer com a guerra. Odisseu demonstra o desejo de paz, quando a pulsão de morte é reprimida, e se busca evitar a guerra delirante e delirada na realidade. Aquiles morreu como herói ao saciar seu desejo de morte com sua própria morte. Odisseu viveu como herói sem precisar saciar seu desejo de morte em sua vida.

Quando a Grécia se tornou um Estado com a união de todas cidades se desfazendo das armas e não se vendo mais como inimigas, a democracia surgiu e, com ela, a política como desejo de um modo de vida ameno na pólis. É quando a realidade deixa de ser um delírio de guerra e passa a ser pensada em si como a realidade do Estado, da pólis, da política e de seus políticos. Porém, o Estado de paz democrática, ou Estado de direito, pode se tornar um Estado delirante pela guerra com o desejo de portar armas, combater inimigos e a sociedade novamente ser uma máquina delirante de guerra, agora, como aparelho do Estado com suas Forças Armadas.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE. Escreve quinzenalmente no Blog Escrivaninha.

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