Por falar em estátuas, cadê a do Leonel Brizola no Centro de Fortaleza?

O historiador e cineasta Luís Carlos Saldanha, do Blog Centreiro, faz um registro bastante relevante em meio à discussão sobre a derrubada ou não de estátuas de personagens históricos: Cadê a imagem de Leonel Brizola na travessa Crato, no Centro, quase em frente à Catedral Metropolitana de Fortaleza? Eis o relato dele, apontando o sumiço da obra daquele local:

“Centro – lugar de lembranças, esquecimentos e de efemeridades. Daquilo que dura pouco tempo. Cadê tu, Brizola? Entre a inauguração, a reinauguração e o sumiço foram pouco mais que dois anos! A estátua do político gaúcho Leonel de Moura Brizola (1922 – 2004) foi inaugurada em 22 de junho de 2016. O político foi fundador do PDT, atual partido do prefeito José Sarto Nogueira e dos Ferreiras Gomes.

O editor do Blog Escrivaninha posa ao lado da estátua de Brizola, no Centro, em julho de 2017

Na inauguração, ficou estabelecido que a Travessa do Crato – onde está localizado o monumento e o famoso Raimundo dos Queijos – foi revitalizada e passará a ser chamada de Praça Leonel Brizola. Ato que não agradou muito os frequentadores do local.

A Travessa do Crato na tarde desta sexta, dia 30, às 15h30, sem a estátua

No ano seguinte, a estátua teve um dos braços arrancados pelo vandalismo. Foi retirada do local, restaurada e reinaugurada em 17 de junho de 2018. No mesmo ano, o monumento recebeu protestos de grupos políticos contrários aos Ferreira Gomes. No começo de 2019, notei que nem a estátua e nem seu pedestal se encontravam mais no lugar. Segundo um vendedor do local, ela foi retirada por completo depois que seus braços foram arrancados. Nenhuma notícia foi encontrada sobre uma possível volta (de novo!).

Pobre Leonel, homenageado sem ser integrado ao espaço, vandalizado porque não foi protegido pelo poder público, achincalhado por motivos político-partidário, desaparecido por tempo indeterminado. Uma prova de que os espaços possuem suas próprias histórias e vivências, e que o ato de incorporar qualquer coisa num espaço que não respeite essas histórias e vivências de quem ali habita estará fadado ao esquecimento”.

“Cadê a estátua?”

Entidades protestam contra eleição para Ouvidoria Geral da Defensoria Pública; seis candidaturas femininas foram indeferidas

A Ouvidoria Geral Externa é responsável por identificar as demandas da sociedade a fim de acionar a administração pública para que possam ser solucionadas

Por Dayanne Borges

A eleição da Ouvidoria Geral Externa da Defensoria Pública Geral do Ceará, que ocorreu no último dia 28, tem gerado protesto por parte dos movimentos sociais. O motivo é o indeferimento de seis candidaturas femininas. Apenas uma candidatura foi deferida, a do advogado Francisco Allyson da Silva Frota. Como forma de protesto, a adesão ao pleito foi baixa: somente nove das 37 entidades com direito a voto participaram do processo eleitoral. Vinte e três instituições se manifestaram por meio de uma nota, na qual justificavam o não comparecimento dos movimentos sociais à votação e, além disso, declaravam voto nulo coletivo.

As candidaturas foram barradas pela comissão eleitoral sob o argumento de inconsistência na documentação apresentada. As postulantes entraram com um recurso no Conselho Superior da Defensoria Pública do Ceará, que manteve o indeferimento. As duas chapas eram formadas por Ana Eugênia, Antonia Araújo, atual Ouvidora, e Ceiça Pitaguary; Erika Cunha, Maria Elzivone, e Carlinda Montenegro.  A Comissão Eleitoral enviou o nome do Francisco Alysson da Silva Frota ao Conselho Superior da Defensoria, instância que fará a escolha do candidato da lista tríplice.

Ana Eugênia, militante do movimento Quilombola do Ceará e uma das postulantes que teve sua candidatura indeferida, ressaltou a importância da Ouvidora Geral para os movimentos. “A Ouvidoria Geral Externa é um elo entre o cidadão e a administração pública. A função dela é acolher e apreciar as manifestações da sociedade e encaminhar as demandas aos setores competentes, proporcionando esse diálogo. Juntamente a isso, o ouvidor pode indicar políticas públicas para os gestores públicos, a partir da observação e da necessidade. A participação dos movimentos sociais é fundamental para a garantia de direitos para aqueles que precisam lutar por eles.”    

A candidata defendeu ainda a importância da ocupação das mulheres nos espaços de tomada de decisões, que têm como maioria homens e pessoas brancas, dificultando o avanço de pautas sociais mais igualitárias. “Citando Angela Davis, quando uma mulher negra se movimenta toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, argumenta.

Segue a lista das instituições que assinaram a nota: Fórum Cearense de Mulheres; Grupo de Valorização Negra do Cariri; Associação Indígena Kanindé de Aratuba (Aika); Articulação de Mulheres Indígenas no Ceará – (Amice); Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa); Sindicato dos Servidores Públicos de Icó; Federação dos Trabalhadores Públicos Municipais do Estado do Ceará (Fetamce); Sindicato Unificado dos Profissionais em Educação do Município de Maracanaú (Supremas); Cáritas Regional Ceará; Sociedade Independente do Conjunto Novo Crato; Sindicato dos Servidores Públicos de Caucaia; União de Jovens do Vicente Pizon; Instituto Teias da Juventude; Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza; Associação para o Desenvolvimento Local Co-Produzido (Adelco); Movimento Negro Unificado (MNU); Instituto do Museu Indígena Pitaguary; Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza; Kizomba; Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza; Sindicato dos Jornalistas do Ceará – (Sindjorce); Cooperativa Interdisciplinar de Capacitação e Assessoria LTDA- Casa Lilás e Federação dos Povos Indígenas do Ceará (Fepoince).

Íntegra da nota oficial da Defensoria Pública:

A Defensoria Pública Geral, órgão de Administração Superior da instituição, informa que não gere a eleição da Ouvidoria Geral Externa, processo no qual as entidades da sociedade civil organizada indicam seus nomes para eleição ao cargo. Uma Comissão Eleitoral, com quatro membros, é formada pelo Conselho Superior da Defensoria e cabe a ela todo o regramento, atos, condução do pleito e apuração dos resultados.

Durante essa terça-feira (27), um amplo debate foi levado ao Conselho Superior da instituição, no qual as representantes da gestão, na qualidade de presidente e conselheira nata, votaram pelo deferimento e manutenção das 3 candidaturas indeferidas, em grau de recurso. Em suas falas, ressaltaram a legitimidade das candidaturas, as lutas sociais e lugar de fala, importantes na construção da democracia e da Defensoria e entendendo que o formalismo do pleito foi suprido, já que os documentos solicitados foram trazidos pelas mesmas. No entanto, essa não foi a decisão da maioria do colegiado, que entendeu por manter o indeferimento com base nas exigências do edital.

Coube à Defensoria Geral proporcionar as condições para que a Comissão Eleitoral realizasse sua função, o que ocorreu na tarde desta quarta-feira (28) com a presença de nove entidades que votaram em favor do candidato Francisco Alysson Frota.

Apesar da exigência legal, Ceará não registra dados sobre a violência contra a população LGBTQIA+

Penalista afirma que faltam verbas federais destinadas a projetos na área de estatística e mapeamento criminal. SSPDS afirma que vem tomando medidas no sentido de coibir violência contra população LGBTQIA+

O Brasil é considerado o país que mais agride e mata homossexuais e pessoas trans no mundo. Dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública reafirmam essa condição, mostrando crescimento superior a 20% no número de notificações de estupros (88) contra pessoas LGBTQIA+ em 2020. O Anuário também chama atenção para o contexto de subnotificação de casos de violência contra essa população no Brasil: dados focados nessa comunidade inexistem em sete estados da federação – Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Maranhão, Ceará, Rondônia e Rio Grande do Sul – segundo o levantamento, que mapeia o crime no país.

“Já existem diversas legislações que obrigam os estados a colherem os dados estatísticos de segurança pública, mas alguns alegam não fazê-lo por falta de verbas”, diz o advogado e especialista em Direito Penal Matheus Falivene, acrescentando que “o caminho correto seria a destinação de verbas federais para projetos na área de estatística e mapeamento criminal”.

Diante desta realidade, Falivene concorda que o Supremo Tribunal Federal acertou ao aprovar a criminalização da homofobia e da transfobia em 2019, passando a tipificá-las como racismo – um crime hediondo, inafiançável e com pena de dois a cinco anos de prisão para o agressor. “Porém, para que haja maior segurança jurídica, o correto seria que o Congresso Nacional alterasse a Lei de Racismo para que efetivamente punisse as condutas consideradas homofóbicas ou transfóbicas”, defende o especialista. Para condutas mais graves como estupro e homicídio, “não é necessária a criação de novos tipos penais”, diz Falivene, que também é professor na pós-graduação da PUC-Campinas.

O advogado orienta as pessoas da população LGBTQIA+ que se sentirem agredidas a procurar os canais de denúncia do Ministério dos Direitos Humanos – o Disque 100 -, aplicativos, a Polícia Militar e a Polícia Civil, por meio da delegacia mais próxima. A orientação do especialista para o cidadão que observa um ato de homofobia é a mesma: denunciar o crime imediatamente às instâncias citadas.

Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 80 pessoas trans foram assassinadas no Brasil no primeiro semestre de 2021. A expectativa de vida das mulheres trans no país é de apenas 35 anos.

SSPDS destaca estratégias para redução da violência

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Estado do Ceará (SSPDS-CE) informou que vem aprimorando os dados estatísticos criminais referentes à população LGBTQIA+. Segue o texto na íntegra:

“A Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), órgão vinculado à pasta, elaborou uma nota técnica intitulada de ‘Orientações sobre Questões de Gênero e Sexualidade’. A iniciativa visa aperfeiçoar as estatísticas possibilitando a obtenção de dados específicos que darão suporte à elaboração de políticas públicas voltadas para o combate aos crimes de ódio contra esse público. Além da confecção desse estudo, a Supesp realiza um monitoramento e avalia indicadores criminais que possam subsidiar a proposição de políticas voltadas para diminuição dos crimes, bem como elabora estudos setoriais especiais e conjunturais de interesse da segurança pública.

A SSPDS-CE ressalta que todos os casos de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) envolvendo o público LGBTQIA+ são apurados pela Polícia Civil do Estado do Ceará (PC-CE) com a finalidade de identificar autoria e materialidade. Ainda no âmbito da Polícia Judiciária, a PC-CE implementou, em 17 de maio deste ano, uma comissão de monitoramento das ocorrências de CVLI contra pessoas LGBTQIA+ consumadas a partir de 2020 em todo o Estado do Ceará. O grupo é ligado ao Departamento de Polícia Judiciária de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPJGV) e acompanha os procedimentos policiais, faz interlocução com a rede de atendimento, órgãos governamentais e movimentos sociais, e produz relatórios com a análise de perfis de vítimas e agressores, bem como demais dados relevantes para construção de ações e políticas de prevenção e repressão a crimes contra essa parcela da população.

Além disso, uma atualização no Sistema de Informações Policiais (SIP3W), utilizado pela PC-CE, permitiu a inclusão dos campos referentes à orientação sexual e à identidade de gênero das vítimas. A mudança foi realizada após confecção da Nota Técnica “Orientações sobre Questões de Gênero e Sexualidade”, realizada pela Supesp. Com a adequação desses campos, é possível identificar com mais facilidade os crimes de LGBTfobia, bem como melhorar os dados estatísticos concernentes à população LGBTQIA+. Para aprimorar o atendimento às vítimas, a Delegacia Eletrônica (Deletron) incluiu em maio de 2021, três novas tipificações criminais para registro de ocorrências. Com a alteração, os crimes de preconceito, sejam eles por raça, cor ou por condutas homofóbicas ou transfóbicas, podem ser registrados pela internet pelo endereço eletrônico https://www.delegaciaeletronica.ce.gov.br.

Como parte da elaboração de estratégias para reduzir as ocorrências de violência contra essa população, a Secretaria também mantém diálogo permanente com representantes de entidades LGBTQIA+. Uma das reuniões promovidas com esse objetivo foi realizada na manhã da última quarta-feira, dia 21 de julho, na sede da SSPDS, onde foram recebidos integrantes dessas organizações, bem como de representantes da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) e do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE).

A pasta reitera que tem colocado em prática inúmeras iniciativas voltadas para o público LGBTQIA+ nos últimos anos com base em iniciativas realizados pela SSPDS-CE e seus órgãos vinculados, e em ações feitas em parceria com a Secretaria de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS) e membros de entidades da sociedade civil, como forma de prevenção e combate a crimes de ódio motivados por identidade de gênero ou orientação sexual. Entre as ações, a formação dos agentes da segurança pública na Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp) para realização de atendimento apropriado das ocorrências. Seminários temáticos, disciplinas específicas e capacitações continuadas trabalham a atuação do agente da segurança pública no trato de grupos vulneráveis.

O trabalho de atendimento e acompanhamento dessa população conta também com o Grupo de Apoio às Vítimas de Violência (GAVV) da Polícia Militar do Ceará (PMCE), que atua de forma preventiva na Capital e nos municípios de Maracanaú, Itapipoca, Juazeiro do Norte, Sobral e Iguatu, fazendo o acompanhando de vítimas de violência. Por fim, a pasta afirma que mantém o compromisso de prestar atendimento adequado e a devida proteção de todos os grupos vulneráveis, por meio de políticas públicas que assegurem direitos e garantias fundamentais”.

(com informações da assessoria)

Pastorais sociais denunciam “cisma branco” e rejeição ao modelo de Igreja do papa Francisco

Por Ricardo Moura

Vinte e seis pastorais sociais e movimentos da Arquidiocese de Fortaleza se manifestaram ontem, por meio de uma nota de solidariedade, sobre as agressões sofridas pelos sacerdotes da Paróquia da Paz. De acordo com o documento, as ofensas mostram “com clarividência a rejeição ao modelo de Igreja em saída para as periferias (cf. Evangelii Gaudium, 49), ao modelo de Igreja participativa e da profecia que papa Francisco tanto deseja e que ele mesmo tem encontrado por parte do conjunto de muitos que se dizem ‘católicos’ e mesmo de hierarquia e laicato, profundas dificuldades e rejeições, num verdadeiro ‘cisma branco’ no interior dessa Igreja”.

Ainda segundo a nota, a Igreja vive um “um momento desafiador, de ‘grande estiagem’, em que determinados setores eclesiais estariam saudosos de uma “igreja alinhada com os poderosos, omissa diante das injustiças sociais contra os pequenos”. “Não podemos deixar que a Igreja fique aprisionada aos gritos e à vontade de quem quer ‘envelhecê-la, mantê-la no passado, torná-la imóvel’ (Christus Vivit, 35)”, ressalta o documento.

O texto se encerra com mais uma reafirmação de apoio aos sacerdores Lino Allegri e Oliveira Rodrigues, pároco da Paróquia da Paz, além de cobrar a responsabilização sobre a autoria dos ataques virtuais: “somos a favor da irrestrita apuração de quem nas redes sociais insiste em disseminar mentiras contra padre Lino e quaisquer outras pessoas defensoras dos direitos humanos, democracia e da justiça social”.

Embora o caso tenha obtido repercussão nacional e internacional, o arcebispo de Fortaleza, dom José Aparecido Tosi, ainda não se manifestou pessoalmente e publicamente sobre o ocorrido. O silêncio episcopal é motivo de incômodo e de estranhamento entre agentes de pastoral ouvidos pelo blog. Há um temor de que o não posicionamento do arcebispo seja interpretado pelos setores mais conservadores como uma espécie de consentimento a esse tipo de prática. Por causa disso, a publicação da nota de solidariedade oriunda das próprias pastorais e movimento torna-se uma ação de profunda importância no atual cenário pelo qual atravessa a Igreja Católica no Ceará.

Perspectivas e tensões

Ítalo Morais, membro da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), e Diana Maia, do Conselho Pastoral dos Pescadores, fizeram um balanço sobre o cenário atual da Igreja Católica no Ceará, em especial as comunidades mais identificadas com a proposta de uma “Igreja em Saída” do papa Francisco: “É nesse contexto de uma espiritualidade intimista, fora da realidade, onde não se luta por justiça social e cidadania que o clima fica cada vez mais tensionado em nossas comunidades de base. Sabemos de relatos onde se procura rotular o padre que faz uma fala mais contundente na linha da dimensão social da fé como um padre de esquerda, de comunista ou que confunde o altar com palanque. Nossas comunidades hoje em sua grande maioria parecem que esqueceram a profecia e vivem apenas do culto e da doutrina, acabam sendo terreno fértil para esse tipo de fiel que gosta de ir à Igreja apenas para ouvir ‘as coisas de Deus’”.

“Pensamos que o momento exige de nós prudência e atitude de prontidão.  Nosso trabalho é permanente no sentido de ajudar as nossas lideranças eclesiais do conjunto das 18 pastorais sociais, dos organismos e as nossas CEBs na articulação. Nosso esforço tem sido trabalhar numa perspectiva da pastoral de conjunto e fazer um trabalho de incidência junto aos mais vulneráveis de nossa sociedade. Temos muito claro que precisamos aproveitar o momento do Papa Francisco entre nós, promover estudos e seminários sobre questões sociais e problemas da cidade, animarmos a 6a. Semana Social Brasileira que traz as grandes preocupações do Papa Francisco: Terra, Teto e Trabalho. Particularmente sobre o episódio que envolve o padre Lino Allegri e Padre Oliveira, estamos solidários como já demonstrado por manifestações de nossas pastorais como Povo da Rua, Pescadores, PJMP… Estamos também encaminhando uma conversa com a Articulação Arquidiocesana para pensarmos outras ações, pois não podemos silenciar diante dos que se colocam contra o projeto de Jesus e ameaçam nossos irmãos e irmãs comprometidos e comprometidas com a defesa da vida e a justiça social”.

“Infelizmente é verdade que em muitas igrejas paroquiais há um sentimento de acirramento dos ânimos, clima de polarização no contexto político que estamos vivendo. Sabemos que nossos agentes de pastoral que procuram ligar fé e vida, que fazem uma leitura crítica da realidade a partir do Evangelho são confundidos e rotulados de fazer política. Muitos fiéis e gente da hierarquia das Igrejas tratam de elaborar um discurso onde fazem um profundo divórcio da espiritualidade e da vida cotidiana. Mas seguimos atentos e atentas a nossa missão de ser presença profética de defesa da vida e nossa casa comum”.

Acesse a nota de solidariedade na íntegra:

Frei franciscano sofre ataques e ameaças de morte por apoio à população LGBTQIA+

Além da atuação em defesa da população LGBTQIA+, críticas ao Governo Federal têm rendido ataques e ameaças de morte ao frei franciscano Lorrane Clementino. Religioso busca amparo na justiça contra hostilidades sofridas nas redes sociais.

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

As hostilidades a religiosos que defendem uma igreja com valores mais progressistas não se restringem apenas às intimidações ocorridas aos padres da Paróquia da Paz e que resultaram no ingresso dos sacerdotes ao Programa de Prevenção a Defensores dos Direitos Humanos (PPDDH). O frei Lorrane Clementino, da Ordem dos Frades Menores (OFM), vem sendo alvo, nos últimos dias, de ataques pessoais e ameaças de morte por sua luta a favor da população LGBTQIA+ e pelas críticas feitas ao Governo Federal e às práticas conservadoras no interior da Igreja Católica.

O frade participou recentemente da ocupação realizada ao Centro de Referência LGBT Janaína Dutra, cuja missão é planejar, articular e executar ações na área de promoção, defesa e difusão dos direitos da população LGBT. O protesto cobrava maior atenção da Prefeitura de Fortaleza à manutenção e efetividade do equipamento. Imagens de apoio aos manifestantes foram publicadas nas redes sociais do religioso, bem como cobranças ao prefeito José Sarto Nogueira (PDT).

Quando perguntado sobre sua atuação voltada para a população LGBTQIA+, o frei explica: “Como frades, só queremos repetir o gesto de São Francisco, já que somos seus seguidores. Nenhuma lei deve estar acima do amor. De forma específica, em Fortaleza, a nossa atuação se dá justamente como presença. Não é o frei Lorrane que está lá junto a esses irmãos e irmãs, são os Franciscanos, é a Igreja”.

O religioso também afirma prestar apoio a grupos que desejam vivenciar a espiritualidade cristã, mas são marginalizados em suas comunidades por sua orientação sexual. “Tenho acompanhado ações em defesa das garantias de direito da comunidade LGBT e junto à outras lideranças religiosas no combate a LGBTfobia”, ressalta.

Críticas políticas alimentam ódios nas redes

Em seus perfis nas mídias sociais, frei Lorrane posiciona-se sempre contra práticas conservadas na Igreja Católica, bem como aos retrocessos promovidos pelo Governo Federal nas mais diversas áreas. O religioso esteve presente ao protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ocorrido no último dia 3, em Fortaleza. O frade portava um cartaz onde se lia: “Se Bolsonaro estiver certo, Jesus está errado”. A imagem gerou ampla repercussão, sendo replicada em diversos meios de comunicação.

O religioso na manifestação do 3J

Toda essa movimentação, tanto nas redes sociais quanto presencialmente, tem despertado uma série de ataques, principalmente por meio das redes sociais. O frade contou que está acompanhando as hostilidades e também tem compartilhado as ofensas sob a forma de denúncia. Os insultos, contudo, nunca são respondidos.

As ofensas tiveram início a partir de 2019, após participar do Grito dos Excluídos em Campina Grande (PB), em que recebeu algumas críticas, mas de forma moderada. “Meu perfil passou a ter mais seguidores e com isso mais engajamento. Por isso, deve ter chegado a muitos haters que em outras publicações começaram a me atacar de forma mais direta. Então, sempre que posto alguma atividade que realizo, sem tabu, me chegam mais e mais mensagens. Com os atos #ForaBolsonaro, tendo participado e compartilhado, as agressões e insultos estão sendo bem mais intensos.”, avalia.

Em relação aos ataques, o Frei Lorrane contou que tem recebido mensagens de solidariedade de amigos e de pessoas que nunca viu, e isso o tem fortalecido. Consciente dos riscos de sua missão, o religioso tem agido com cuidado e com atenção redobrada. Um boletim de ocorrência foi registrado, bem como um processo junto ao Ministério Público. O frade viu a necessidade de tomar essa iniciativa por sentir sua integridade ameaçada.

Ofensas, hostilidades e ameaças veladas de morte

Prints obtidos pelo Blog Escrivaninha revelam o grau de hostilidade ao qual o frade está exposto. Em uma mensagem enviada por meio de um DM no Instagram, um perfil cujo nome é “Leonardo Junqueira F Mourão” escreve:

“Eu gostaria muito de ir conversar com o senhor, sabe? A primeira coisa que eu quero lhe dizer pessoalmente, cara a cara, olho no olho, é que vc é um apóstata. Vou te provar que vc é excomungado com a bula papal nas mãos. Nas palavras de João Paulo II, você é uma vergonha do gênero humano, parafraseando a condenação do Papa ao comunismo. Ao final, vou dar-lhe um conselho apostólico: saia desse barco furado em que vc se meteu e entre na barca de São Pedro, pois que o seu destino se não sair desse atoleiro é o INFERNO. É bom pensar nisso pois, como diz o Salmista, a vida é um sopro. Deus que está pronto a perdoar, nem Sempre terá tempo de se arrepender… pense nisso frei”.

Print de mensagens com ameaças enviada pelo Instagram

Em outra mensagem, dessa vez no Twitter, um perfil faz uma associação entre a defesa da população LGBT feita pelo frei e a pedofilia na Igreja Católica, uma forma de ataque bastante utilizada por grupos conservadores:

Tuíte que se vale da tática de vincular a homossexualidade à pedofilia

Uma comentário no Facebook traz uma ameaça velada ao religioso sob a forma de advertência:

Um perfil no Instagram, com o nome “Beato Padre Victor” – dedicado a divulgar notícias e artigos defendendo o tradicionalismo na Igreja Católica – publicou uma postagem, no último dia 14, na qual desfere vários ataques ao frei, acusando-o de “militante travestido de frei”, “comunista” e defensor de “ideologias anticatólicas”. Até mesmo o nome do religioso é motivo para escárnio, haja vista que “Lorrane” pode ser um nome dado tanto a pessoas do sexo masculino quanto feminino. Segue o texto de descrição do post:

“Religioso” da Ordem dos Frades Menores

De nome sugestivo, e atitudes vergonhosas, este militante apostático poderia ser tudo e age como tudo: como ateu, agnóstico, militante homossexual etc, apenas não como Católico! Uma vergonhosa demonstração da podridão moral e espiritual do Clero brasileiro, talvez, um dos mais imundos de nossos tempos, como porcos no chiqueiro.

(…)

Uma rápida olhada nos perfis que o mesmo segue, já mostra onde está seu amor: no mundo. Onde vive publicamente como um revolucionário LGBT e Marxista! Ele precisa as pressas de se converter e ser corrigido, e se persistir nos erros, excomungado. Tal Frei é da linha dos que endossam o genocídio da ditadura cubana e venezuelana (…). Apesar de que sabemos que hoje, os piores, é mais fácil que se tornem Bispos. Lorrane, não tem condições mínimas para ser Religioso na Igreja de Cristo! Tem tudo para conhecer a Fé, estudou com nosso dinheiro na Igreja, portanto, não é ignorância, mas maldade. Esperamos que ele se converta, pois esta não é a atitude de um verdadeiro filho da Igreja, se persistir, seu passaporte é o inferno.

Converta-se!

Postagem em que diversas ofensas são dirigidas ao religioso

Trajetória e seguimento a Francisco

Frei Lorrane ingressou na Ordem dos Frades Menores em 2014. O processo formativo aconteceu nos municípios de Triunfo (PE) e em Lagoa Seca (PB). Três anos depois, o frade professou seus votos religiosos. No ano seguinte, mudou-se para a capital cearense, onde cursa o bacharelado em Teologia, no Seminário da Prainha.

De acordo com a própria congregação, a Ordem Franciscana foi criada como uma ordem de Irmãos, que assumiam a missão de viver e pregar o Evangelho. Não se tratava inicialmente de uma Ordem Clerical. O próprio Francisco não quis ser sacerdote e os primeiros frades também não tinham esse objetivo. Por uma série de necessidades da própria igreja, contudo, a maioria dos frades passou a se ordenar. A Ordem é dividida em três ramos: Ordem dos Frades Menores (OFM), Capuchinhos (OFMCap) e Conventuais (OFMConv).

(com informações do site franciscanos.org).

Para saber mais:

Hostilidades refletem polarização política

Padre Lino pede inclusão em Programa de Proteção de Defensores dos Direitos Humanos

“Botamos os comunistas pra correr”, grupo comemora boicote a padres

“Botamos os comunistas pra correr”, grupo comemora boicote a padres

A intimidação dos religiosos da Paróquia da Paz, sem que os opositores enfrentassem maior resistência, abre um perigoso precedente na Igreja Católica do Ceará. Os profetas ainda poderão falar na Arquidiocese que um dia foi conduzida por dom Aloisio Lorscheider?

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

“Brasil acima de tudo. Deus acima de todos. Missa Paróquia Paz hj. Botamos os comunistas pra correr”. A mensagem de voz que circula no whatsapp dá conta de uma bem-sucedida ação promovida na Igreja Matriz da Paróquia da Paz, nesse último domingo, dia 18, por bolsonaristas. Um militar reformado expõe ao interlocutor suas impressões sobre a presença ostensiva e organizada de opositores na celebração a fim de impedir que pautas que não fossem de interesse do grupo fossem abordadas na missa. O conteúdo do áudio é o que segue:

“Domingo passado não foi a confusão que o MST, os de vermelho, invadiram a igreja e leram o manifesto da Covid, do genocídio no meio da missa? Um padre filha da puta que é um padre comunista safado… Aí o pessoal se revoltou, os militares combinaram tudo de ir pra missa. Estava cheio de general, coronel, foram tudo de verde e amarelo. Não apareceu um dos vermelhos. Os padres pediram arrego, perdão… “Aqui é pra rezar”… Já afastaram o padre lá. Da outra vez estava cheio de militar. Foi uma beleza a missa com a nossa presença lá. Era os militares tudinho, meu irmão. Tinha carro de polícia lá fora, tinha tudo que o Camilo tinha mandado desde o domingo passado para proteger o MST. Não apareceu um. Dizendo que iam pro confronto e tal. Cheio de militar lá tudo de verde e amarelo, Brasil. O padre não falou em Covid, não falou em nada, só fez dizer que era a casa Deus, que perdoasse, que o lugar era de missa. Foi bom, tem que marcar a posição, não pode deixar esses filha da puta ocuparem os espaços nãos. Até dentro de igreja lendo manifesto comunista da CNBB, bando de filha da puta. Foi bom, um abraço”.

Print da mensagem sobre o resultado da ação contra os padres

A sensação de vitória ocorre após dois domingos de elevada tensão na paróquia. As críticas feitas à atuação do Governo Federal causaram revolta em parte dos fiéis que passaram a hostilizar os sacerdotes tanto nas missas quanto nas redes sociais. O ato do último domingo, dia 18, vinha sendo gestado pelo Whatsapp, como informou o Blog Escrivaninha. Nem o padre Lino Allegri e nem o pároco da Paróquia, padre Oliveira Braga Rodrigues, alvos dos ataques, participaram da celebração dominical. Não há informações sobre quando Allegri retornará à missa da Matriz. Na tarde de ontem, o religioso celebrou na Capela Nossa Senhora das Graças, na comunidade Trilha do Senhor. 

As agressões fizeram com que o padre Lino Allegri solicitasse o ingresso no Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, conforme revelou, também com exclusividade, o Blog Escrivaninha. A notícia repercutiu local e nacionalmente, ganhando espaço nas páginas do O Globo (embora o sacerdote tenha sido tratado na matéria como pároco, o que não é correto) e do UOL, fazendo com que o governador do Estado tivesse de se pronunciar sobre o caso no domingo à tarde.

Camilo Santana demonstrou solidariedade ao presbítero e classificou como “inaceitável” a “atitude desses que se dizem cristãos ‘invadirem’ uma igreja para insultar e intimidar um líder religioso”. O Governador revelou ter pedido a abertura de um inquérito para investigar os ataques. “Informo que desde a semana passada determinei ao nosso secretário da Segurança para não só enviar policiais para garantir a integridade do Padre Lino como instaurar inquérito para apurar qualquer tipo de ameaça contra ele. Não iremos aceitar que atitudes como essa, de ódio e intolerância, fiquem impunes”, argumenta.

Postagem do Twitter anunciando as medidas do Governo do Estado em relação ao caso

Se o Governo do Estado se manifestou publicamente, o mesmo não se pode dizer sobre o arcebispo de Fortaleza, dom José Aparecido Tosi. Procurado pela reportagem desde a quinta-feira passada, dia 15, o Setor de Comunicação da Arquidiocese não se pronunciou sobre os ataques, muito menos se o padre Lino Allegri voltará a celebrar missas na Igreja Matriz da Paróquia da Paz. O silêncio causou incômodo nas redes sociais.

Missa foi marcada por clima de apreensão

O policiamento esteve mais uma vez presente no entorno da Igreja Matriz. A celebração, dessa vez, ocorreu sem transtornos, embora fosse possível perceber um grande número de pessoas de verde e amarelo. Não houve menções diretas à conjuntura política e sanitária do país como das outras vezes. Os celebrantes da missa foram o padre Francisco Sales de Sousa, vigário da paróquia, e o diácono Aurimar de Moura. Eles foram recebidos com uma salva de palmas enquanto se preparavam para iniciar a missa. Mas antes disso, na entrada, já era possível perceber um apelo à paz por parte dos paroquianos. Fiéis distribuíram adesivos com a frase “somos da paz”. Enquanto muitos aderiram à iniciativa, outros recusaram colocar o acessório.

Fiel distribui adesivo pregando a paz na paróquia. Foto: Dayanne Borges

A segunda Leitura contemplou a Carta de São Paulo aos Efésios, que pregava a unidade em vez da divisão, haja vista que, a partir do judeu e do pagão, Jesus criou um só homem além de destruir a inimizade entre a humanidade. O texto sagrado não deixa de ecoar a divisão interna existente na paróquia, mas dessa vez sem a possibilidade de um Salvador que possa unir os dois lados.

O momento da homilia foi aguardado com tensão, uma vez que as hostilidades se deram a partir do pronunciamento do padre. No entanto, o padre Sales utilizou a oportunidade do discurso para reiterar o que tinha sido lido na liturgia da missa. Abordou o sentimento de exaustão que domina a todos e tentou se mostrar descontraído, mas o clima pesado que imperava sobre os paroquianos não se dissipou. Na hora da prece das intenções, uma delas se deu pela saúde do presidente Jair Bolsonaro.  Pouco depois, um homem apanhou o microfone e pediu pelo fim da ditadura em Cuba. Foi aplaudido.

Padre Lino irá solicitar inclusão no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH)

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

Aos 82 anos de idade e aos 56 anos de vida sacerdotal, o padre italiano Lino Allegri, deverá solicitar o ingresso no Programa Estadual de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos (PPDDH). A decisão ocorreu na noite da última quinta-feira, dia 15, durante uma reunião virtual com amigos e membros da Defensoria Pública e do Ministério Público. A escalada de agressões, ataques virtuais e hostilidades ocorridas na Paróquia da Paz contribuiu para que esse fosse o caminho a ser tomado. A medida visa à proteção da integridade pessoal do sacerdote, bem como assegurar a manutenção da atuação dele na defesa dos direitos humanos. A possibilidade de que mais pessoas envolvidas nesse episódio de intolerância possam vir a pedir a inclusão no programa não está descartada.

Quando chegou em Fortaleza, no início da década de 1990, padre Lino atuou principalmente nos bairros da periferia, onde foi pároco no Genibaú, no Tancredo Neves e na comunidade das Goiabeiras, na Barra do Ceará. O convite para celebrar na Paróquia da Paz foi feito pelo pároco da época, o monsenhor Virgínio Asênsio Serpa. Por causa de sua condição como religioso aposentado, Lino Allegri passou a contribuir pontualmente nas capelas que atendem comunidades como a dos Trilhos e a do Campo do América. O atual pároco, padre Oliveira, pediu para que o sacerdote mantivesse suas atividades paroquiais.

O padre afirma poder contar com uma rede de apoio, reconhecimento e solidariedade em torno da sua atividade pastoral. Embora estejam vivendo um período de provação, os laços que unem os sacerdotes que compõem a paróquia tornaram-se mais fortes. Um exemplo disso é que a celebração dominical do dia 11, que foi interrompida por um coronel do Exército da reserva, foi denominada pela comunidade como missa de desagravo ao padre Lino.

A missão tem lá seus espinhos. Lino Allegri revela ter sentido um certo estranhamento por parte de alguns fiéis desde que chegou à paróquia, haja vista o contraste entre os públicos com os quais trabalhou, que era formado majoritariamente por pessoas pobres, trabalhadoras e vulneráveis.

Ainda assim, o padre ressalta não ter vergonha de assumir que a Teologia da Libertação o ajudou a entender o papel do cristão na sociedade. O sacerdote diz que sua marca é fazer uma ligação entre a palavra de Deus com a vida concreta em sociedade, mesmo que isso possa ser motivo de não aceitação por parte de determinadas pessoas que possuem uma realidade e uma condição social diferentes.

Os irmãos Ermano e Lino Allegri

Igreja em saída

Após décadas de sacerdócio, o padre estabeleceu uma estreita ligação com o movimento Igreja em Saída, formado por sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos e leigas, que busca atender ao apelo do Papa Francisco. “No primeiro ano do pontificado do papa, em um dos seus discursos, ele utilizou a expressão que a igreja deveria ser em saída, isto é, sair dos templos e se deslocar até as periferias geográficas e existenciais. Para não pensar que ser igreja é apenas se reunir no espaço físico e celebrar sacramentos”, comenta.

Padre Lino faz questão de acrescentar que o surgimento desse movimento em Fortaleza não foi promovido pelo alto escalão da Igreja Católica, como os bispos, mas sim por um grupo de leigos em parceria com três sacerdotes, incluindo os irmãos Allegri (Lino e Ermano). A busca por uma organização mais horizontal é uma característica da atuação do religioso, cujo foco está centrado justamente nas populações mais vulneráveis. Um exemplo disso é o trabalho dele na criação e no desenvolvimento da Pastoral do Povo da Rua.

Sobre o PEPDDH

O Programa Estadual de Proteção aos Defensores e Defensoras de Direitos Humanos consiste no conjunto de medidas protetivas e atendimento jurídico e psicossocial a pessoas ou grupos que promovem, protegem e defendem os Direitos Humanos, e que estão em situação de risco ou que sofreram violação de direitos em razão de sua atuação. O programa integra o Sistema Estadual de Proteção a Pessoas.

As formas de proteção do PPDDH são: visitas no local de atuação do defensor, realização de audiências públicas de solução de conflitos e acompanhamento das investigações e denúncias. É preciso a comprovação de que o interessado atue ou tenha como finalidade a defesa dos direitos humanos e seja identificada a causalidade entre a violação ou ameaça e a atividade de defensor.

Entenda o caso

Lino Allegri é um padre missionário italiano com 56 anos de vida presbiteral. No Brasil desde a década de 1970, o religioso possui diversas contribuições para a ação pastoral e eclesial na Igreja. Atuou nas comunidades de base desde o interior da Bahia, esteve presente nas pastorais sociais, na coordenação do Centro de Defesa e Promoção Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza e na Agência de Notícias Esperança (Anote). Atualmente está engajado na Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Fortaleza.

No último dia 4, Allegri foi hostilizado por um grupo de fiéis minutos após o fim da celebração da missa de domingo. Em sua homilia, o sacerdote criticou o presidente Jair Bolsonaro pela forma como o Governo Federal vem se portando durante a pandemia da Covid-19, em que mais de 530 mil brasileiros foram mortas pela doença. Oito pessoas entraram na sacristia sem autorização e o repreenderam pelos comentários de forma agressiva e em tom de ameaça.

Allegri afirma ter sido vítima também de xenofobia. “Eles entraram na sacristia já bastante alterados, com tom de voz agressivo, me atacando. Disseram que não estavam de acordo com o que eu tinha falado em relação ao presidente da república, que ele é um cristão e um bom presidente, e que eu deveria rezar por ele”, disse o padre em entrevista ao OPOVO.

No último domingo, dia 11, um homem interrompeu a celebração e teve de ser contido e expulso do local por fiéis. A ação ocorreu justamente no momento em que uma carta de apoio e solidariedade ao padre Lino estava sendo lida.

Bastidor

Fizemos o contato pela manhã, mas por causa de um dia cheio de compromissos, o padre Lino, só pode atender o Blog Escrivaninha às 19 horas da última sexta-feira, dia 16. Mesmo atravessando uma semana turbulenta, o sacerdote foi solícito e manteve um diálogo descontraído na medida do possível. A entrevista aconteceu por meio de uma videochamada no Google Meet. O religioso relembrou com bastante eloquência e disponibilidade sua caminhada na vida sacerdotal, embora parecesse receoso de falar sobre os ataques sofridos.

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Hostilidade a padres reflete polaridade política na sociedade e na igreja

A Paróquia da Paz vive os efeitos de uma “guerra fria” causada pela polarização política e por desentendimentos sobre as decisões tomadas pela Igreja Católica após o papado de Francisco, bem como a chegada à paróquia de sacerdotes alinhados aos novos rumos do Vaticano.

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

Em 2 de fevereiro de 2021, a Paróquia Nossa Senhora da Paz completou 60 anos de existência. Localizada na avenida Visconde de Mauá, a Igreja da Paz foi o primeiro templo católico a ser construído no Meireles, um dos bairros mais ricos de Fortaleza e um dos metros quadrados mais caros da capital cearense.

Em sua história, a Paróquia da Paz teve apenas quatro párocos: monsenhor Amarílio, padre Suzanito, padre Virgínio e o atual, padre Oliveira, que está no cargo desde 2017. O sacerdote atuou em comunidades religiosas da periferia e possui um perfil identificado com os valores de uma igreja mais progressista. Os problemas sociais são uma pauta bastante pertinente em sua gestão. Entre os edifícios e os diversos serviços existentes no entorno da igreja, existem áreas vulneráveis no bairro que são atendidas pelo trabalho social da paróquia. Atualmente, cerca de 3 mil cestas básicas são distribuídas às pessoas carentes que também recebem atendimento médico.

Essa atuação beneficente gera um ponto de discórdia entre a comunidade. Há quem se incomode com uma suposta sobreposição da ação social à política partidária. Esse descontentamento não é exclusivo da Paróquia da Paz. O papa Francisco vem sendo alvo de fortes questionamentos no interior da Igreja Católica por seus posicionamentos sobre determinados temas tidas como “progressistas demais” e até mesmo “comunistas”.

O clima de polarização política acirra ainda mais os ânimos no interior da paróquia. A Praça Portugal, um espaço tradicional de manifestações da direita, está localizada a 350 metros da Igreja da Paz. Religião e política tornaram-se duas dimensões bastante indistintas recentemente, haja vista a presença cada vez maior de discursos religiosos e de padres e pastores tanto na política partidária quanto na prática governamental.

350 metros separam a Paróquia da Paz da Praça Portugal, epicentro das manifestações de grupo de direita em Fortaleza

No entanto, o que vinha transcorrendo como um conflito ideológico velado, restrito apenas ao universo cotidiano dos paroquianos, tornou-se um caso de repercussão nacional após a tentativa de intimidação promovida por fiéis da própria paróquia ao padre Lino Allegri, no último dia 4, após a celebração dominical.

De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, o perfil dos paroquianos que estariam por trás dos ataques e das hostilidades é o que segue: pessoas de classe média alta, na faixa etária acima de 50 anos e com posicionamentos conservadores. Pelo menos três dos agressores já foram identificados. Seus nomes serão preservados haja vista não haver nenhuma denúncia formalizada contra eles.

Convite para missa de boas vindas ao padre Oliveira em abril de 2017

Engajado, mas à luz do Evangelho

Uma pessoa ligada à Paróquia da Paz, cuja identidade é preservada pelo blog, revela como é a atuação do padre Oliveira à frente da paróquia: “Já tá com pouco mais de três anos que o padre Oliveira chegou aqui. Ele tem um trabalho forte, positivo, de apoio às pastorais sociais. Tem um trabalho de terça missionária de evangelização nas casas, nos condomínios. A paróquia tem uma coisa já muito antiga, geralmente na terça-feira, o dia do pão de Santo Antônio, tem muitas senhoras bem idosas, algumas parecem até moradores em situação de rua, mas são das comunidades. Ele dá muito apoio a essas pessoas né? De uma maneira ou de outra, as pastorais sociais tentam ajudar”.

“Tem também o sopão que a paróquia distribui, mas é feito pela Pastoral Familiar, Encontro de Casais com Cristo, mas é um trabalho que ele também acompanha. A postura dele é uma postura engajada. Ele tem uma abordagem sempre muito consciente.  O padre Oliveira critica muito as injustiças realmente de maneira geral, mas sempre fazendo a reflexão encarnando o evangelho. Quer dizer, tem leituras que favorecem mais são mais bem direcionadas a essas questões e favorecem bem a questão do discurso, mas ele nunca deixa de fazer uma conjugação da questão doutrinária, da fé com a questão social, o engajamento na vida, da fé com a vida. Engajar e encarnar o evangelho. O padre Oliveira nunca cita nem partido político, nem nome de políticos e autoridades. Se tiver alguma coisa errada, gritante, ele menciona de forma geral, no genérico”.

Em áudio, empresário faz ofensas a pároco e reforça ação de “patriotas” no domingo

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

O Blog Escrivaninha obteve acesso a um áudio de whatsapp no qual um empresário profere diversos ataques ao padre Oliveira Braga Rodrigues, pároco da Paróquia da Paz, na Aldeota. O religioso é chamado de “comunista”, “canalha”, “picareta”, “imbecil” e “safado”. A mensagem de voz se encerra com mais ofensas e ameaças a partir da presença dos “patriotas” na celebração de 8 horas do domingo. O homem ainda debocha do esquema de segurança montado pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) no último domingo, dia 11, que havia enviado viaturas para monitorar o entorno da igreja. Segue um trecho:

“Ele [o padre Oliveira] está acabando com a Paróquia da Paz. Te prepara pra domingo, se for esse padre Oliveira, te prepara pra domingo que vai ter os patriotas lá na Igreja da Paz para poder tu falar de novo as asneiras que tu falaste domingo passado, viu? Pede mais ajuda ao Camilo que as quatro viaturas que tinha lá pra dar respaldo àqueles cabra de vermelho lá vão ser poucas, viu? Que vai ter muito patriota lá”.

O áudio se encerra com o empresário informando seu nome completo. No perfil dele no Facebook há fotos com o presidente Jair Bolsonaro e postagens relativas ao ano de 2015 fazendo menção às manifestações ocorridas na Praça Portugal que pediam o impeachment de Dilma Rousseff. A fim de preservar a fonte, mantemos a identidade do empresário sob sigilo.

No perfil do Instagram da Paróquia da Paz, foi divulgado que a celebração dominical das 8 horas deverá ser transmitida mais uma vez pelo Youtube. A nota lamenta os episódios recentes de intolerância ocorridos no interior do templo:

“Em razão dos ocorridos nas celebrações dos domingos (4 e 11/07) na missa das 8h e, no intuito de ensejar ampla visibilidade e transparência à mensagem, transmitiremos, mais uma vez, excepcionalmente neste domingo, dia 18/07, às 8:00h da manhã, a celebração eucarística em nosso canal do YouTube (http://bit.do/somosdapaz), evitando, assim, eventuais repetições do desagradáveis episódios”. 

Postagem do Instagram da paróquia

Conforme o Blog Escrivaninha publicou nesta quinta, dia 15, com exclusividade, empresários estariam sendo convocados a participar da iniciativa. Uma fonte ouvida pela reportagem revelou que militares da reserva próximos ao homem que interrompeu a celebração do último domingo, dia 11, também estariam articulando sua participação no ato. O número de pessoas arregimentadas chegaria a “dezenas”. O texto diz o seguinte:

“Amigos empresários, as pessoas estão se mobilizando para irem no próximo domingo na Paróquia da Paz na missa das 8:00 h. Estarão lá para o caso dos padres voltarem a usar a missa como um palanque para a propagação de ideias socialistas. Algumas dezenas de patriotas já confirmaram presença. Vamos divulgar essa iniciativa entre aqueles que também discordam da politização das missas”.

O padre Lino Allegri e o pároco Oliveira Rodrigues estão sendo alvos de ataques pessoais em grupos de whatsapp. Em uma das mensagens às quais a reportagem teve acesso, há críticas a uma suposta “infiltração comunista” na paróquia e ameaça de invasão à igreja no próximo domingo, dia 18, no exato momento em que o padre Lino celebraria a missa. O trecho é o que segue:

“Ouvi dizer que domingo a turma de direita vai fechar a igreja da paz. Vão lotar todos os possíveis lugares. E se tiver esquerdopatas querendo mandar por lá o pau vai quebrar pra valer. A turma católica terá cobertura que ficará do lado de fora disfarçada e entrará na hora H. A culpa será do arcebispo que está inerte, vendo tudo acontecer sem adotar, adrede (sic), as providências necessárias”.

Segundo apuração do Blog Escrivaninha, o religioso pretendia estar à frente da celebração no próximo domingo a despeito das ameaças, mas houve uma recomendação oriunda de instâncias superiores da Arquidiocese para que ele que não realizasse a missa em nome da “prudência”. Enviamos duas perguntas à Arquidiocese de Fortaleza na manhã da última quinta-feira, dia 15, mas até às 00h40 deste sábado não recebemos retorno algum do Setor de Comunicação. As questões são:

1) Qual o posicionamento da Arquidiocese em relação aos ataques e mensagens direcionadas aos padres da Paróquia da Paz?

2) Quando o padre Lino Allegri voltará a celebrar missas?

Opositores de padres da Paróquia da Paz planejam nova ação no próximo domingo

Mesmo após a informação de que o Padre Lino Allegri não celebraria a missa dominical na Paróquia da Paz, na Aldeota, grupos de opositores ao sacerdote e ao pároco planejam realizar uma nova ação de intimidação no próximo domingo, dia 18. Mensagem compartilhada pelo whatsapp convoca empresários a participar da iniciativa. A Arquidiocese de Fortaleza ainda não se posicionou em relação ao caso.

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

Mensagem obtida pelo Blog Escrivaninha revela que está sendo uma organizada uma ação de opositores do padre Lino Allegri e do pároco da Paróquia da Paz na missa do próximo domingo, dia 18, mesmo após ter sido divulgado que o sacerdote não ministraria mais a celebração dominical. De acordo com a publicação, a ideia é que um grupo de pessoas compareça à missa das 8 horas para monitorar a fala dos sacerdotes e, possivelmente, intimidá-los.

Empresários estariam sendo convocados a participar da iniciativa. Uma fonte ouvida pela reportagem revelou que militares da reserva próximos ao homem que interrompeu a celebração do último domingo, dia 11, também estariam articulando sua participação no ato. O número de pessoas arregimentadas chegaria a “dezenas”. O texto diz o seguinte:

“Amigos empresários, as pessoas estão se mobilizando para irem no próximo domingo na Paróquia da Paz na missa das 8:00 h. Estarão lá para o caso dos padres voltarem a usar a missa como um palanque para a propagação de ideias socialistas. Algumas dezenas de patriotas já confirmaram presença. Vamos divulgar essa iniciativa entre aqueles que também discordam da politização das missas”.

Print da mensagem que visa organizar a ação do próximo domingo na Paróquia da Paz

Conforme o Blog Escrivaninha publicou, com exclusividade, o padre Lino Allegri e o pároco Oliveira Rodrigues estão sendo alvos de ataques pessoais em grupos de whatsapp. Em uma das mensagens às quais a reportagem teve acesso, há críticas a uma suposta “infiltração comunista” na paróquia e ameaça de invasão à igreja no próximo domingo, dia 18, no exato momento em que o padre Lino celebraria a missa. O trecho é o que segue:

“Ouvi dizer que domingo a turma de direita vai fechar a igreja da paz. Vão lotar todos os possíveis lugares. E se tiver esquerdopatas querendo mandar por lá o pau vai quebrar pra valer. A turma católica terá cobertura que ficará do lado de fora disfarçada e entrará na hora H. A culpa será do arcebispo que está inerte, vendo tudo acontecer sem adotar, adrede (sic), as providências necessárias”.

Print da mensagem que circulou em grupos da paróquia

Segundo apuração do Blog Escrivaninha, o religioso pretendia estar à frente da celebração no próximo domingo a despeito das ameaças, mas houve uma recomendação oriunda de instâncias superiores da Arquidiocese para que ele que não realizasse a missa em nome da “prudência”. Em uma mensagem no whatsapp, uma paroquiana – que é apontada como uma das articuladoras do ataque e cujo nome será preservado – escreve: “Só avisando que Padre Lino não vai celebrar missa domingo, razão pela qual não realizaremos a manifestação programada”. Pelo que se pode perceber do teor da mensagem publicada hoje, a proposta de realizar a ação foi retomada.

O Blog Escrivaninha enviou duas perguntas à Arquidiocese de Fortaleza na manhã de hoje, mas até o fechamento desta reportagem não recebemos retorno do Setor de Comunicação. As questões são:
1) Qual o posicionamento da Arquidiocese em relação aos ataques e mensagens direcionadas aos padres da Paróquia da Paz?
2) Quando o padre Lino Allegri voltará a celebrar missas?

Entenda o caso

Lino Allegri é um padre missionário italiano com 56 anos de vida presbiteral. No Brasil desde a década de 1970, o religioso possui diversas contribuições para a ação pastoral e eclesial na Igreja. Atuou nas comunidades de base desde o interior da Bahia, esteve presente nas pastorais sociais, na coordenação do Centro de Defesa e Promoção Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza e na Agência de Notícias Esperança (Anote). Atualmente está engajado na Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Fortaleza.

No último dia 4, Allegri foi hostilizado por um grupo de fiéis minutos após o fim da celebração da missa de domingo. Em sua homilia, o sacerdote criticou o presidente Jair Bolsonaro pela forma como o Governo Federal vem se portando durante a pandemia da Covid-19, em que mais de 530 mil brasileiros foram mortas pela doença. Oito pessoas entraram na sacristia sem autorização e o repreenderam pelos comentários de forma agressiva e em tom de ameaça.

Allegri afirma ter sido vítima também de xenofobia. “Eles entraram na sacristia já bastante alterados, com tom de voz agressivo, me atacando. Disseram que não estavam de acordo com o que eu tinha falado em relação ao presidente da república, que ele é um cristão e um bom presidente, e que eu deveria rezar por ele”, disse o padre em entrevista ao OPOVO.

No último domingo, dia 11, um homem interrompeu a celebração e teve de ser contido e expulso do local por fiéis. A ação ocorreu justamente no momento em que uma carta de apoio e solidariedade ao padre Lino estava sendo lida. Conforme o Blog Escrivaninha apurou, o homem já foi identificado. Trata-se de um militar da reserva cujo nome será preservado haja vista não haver nenhuma acusação formal contra ele.