Sobre a crença fetichista no poder das armas de fogo

Há um pensamento mágico muito disseminado no Brasil de que estaremos todos mais seguros se andarmos armados por aí. “Cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio 38”, como cantava Renato Russo. Trata-se de uma ideia tão estapafúrdia que não vale nem a pena discuti-la, em especial pelo fato que se trata de um debate viciado por ser patrocinado justamente por quem tem mais interesse em que a população adquira seus bens e produtos, ou seja, a indústria armamentista. Por que a crença na arma de fogo como proteção para todos os males ainda resiste? A resposta é complexa, mas a resposta diz respeito à dimensão fetichista inerente ao armamento que passa ao largo de qualquer explicação racional. Há até mesmo um termo clínico para isso: hoplofilia, ou seja, um amor exagerado por armas de fogo. Mais que um instrumento de proteção, a demanda oculta dos portadores de armas de fogo consiste em suprir uma carência no interior de uma masculinidade militarizada.

Frente Parlamentar pelo Controle de Armas, pela Paz e pela Vida será lançada no Senado

O registro de novas armas de fogos cresceu 300% em 2021 no Brasil. A escalada armamentista ganhou tração com o novo governo federal, que vê no armamento de segmentos da população sua principal proposta na área da segurança pública. O recorte do perfil socioeconômico dos usuários é uma mostra sobre a quem interessa esse projeto. Como uma forma de barrar esse processo, será lançada, nesta terça-feira (22), às 19h, no Senado Federal, a Frente Parlamentar pelo Controle de Armas, pela Paz e pela Vida.

Armas de fogo sim, máscaras não: o extermínio como política

No mesmo dia em que mais uma vez deu mostras de indignação sobre o uso de máscara para prevenção da Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro ostentou em sua live semanal a réplica de um fuzil produzida por um artesão cearense, motorista aposentado da Polícia Federal, com peças de veículos usados. Para quem se pergunta sobre qual o posicionamento do poder público em relação a tantas mortes ocorridas em operações policiais, o contentamento de Bolsonaro com a possibilidade de uso de uma arma de fogo real em uma comunidade não deixa dúvidas que tais ações são chanceladas e amparadas por instâncias superiores.

Faixa de Gaza, Estados Unidos, Ceará: as múltiplas dimensões da violência armada

Houve quem achasse que sairíamos melhor dessa pandemia. Diversos artigos foram escritos em tom otimista sobre esse futuro pós-pandêmico. Tratava-se, no entanto, de um mero desejo que não encontrou correspondência na realidade. A vontade de eliminar o Outro permaneceu alterada mesmo diante de tantas perdas provocadas pela Covid-19. Nossa sede de sangue exige que ainda mais pessoas pereçam por meio da violência armada: seja na Faixa de Gaza, nos Estados Unidos ou no Ceará.

Escalada armamentista faz Taurus Armas bater recordes de lucratividade e produção

O informe mais recente da Taurus Armas revela o quanto a indústria armamentista vem se aproveitando da conjuntura mundial da pandemia para obter lucros e incrementar sua produção. Nos primeiros três meses de 2021, a Taurus produziu o maior volume de armas da história da companhia em um trimestre. Foram 492 mil armas produzidas.

Alíquota zero para importação sobre armas viola ordenamento constitucional, afirma Fachin

Foram suspensos em caráter liminar os efeitos da Resolução 126/2020 do Comitê Executivo de Gestão da Câmara do Comércio Exterior (Gecex) que zerou a alíquota de importação de revólveres e pistolas. Confira o trecho do voto em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, sustenta sua decisão. O texto retoma o entendimento do órgão sobre desarmamento, bem como os aspectos inconstitucionais da decisão do Gecex. Para o ministro, ” a redução a zero da alíquota do imposto de importação sobre pistolas e revólveres, por contradizer o direito à vida e o direito à segurança, viola o ordenamento constitucional brasileiro”.

Governo aprova isenção “ampla” de impostos para importação de armas de fogo

O fim do imposto não deverá beneficiar somente “o pessoal dos artigos 142 e 144 da Constituição”, mas qualquer pessoa que estiver apta a adquirir uma arma de fogo. A resolução da Câmara de Comércio Exterior que inclui revólveres e pistolas na Lista de Exceções à Tarifa Externa Comum dos países do Mercosul não prevê qualquer restrição a compradores. A alíquota zero para importação não deixa de ser mais um passo no processo de terceirização da segurança promovido pelo Governo Bolsonaro.

O que há por trás da liberação do acesso às armas de fogo?

Em última instância, o discurso de Bolsonaro é um forte estímulo para a formação de grupos armados que compartilham de sua ideologia e do seu projeto de poder, ambos travestidos sob a fantasia de uma “guerra” pela defesa dos valores citados pelo próprio presidente na reunião: família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão e livre mercado. Não à toa está sendo cada vez mais comum se deparar com parlamentares portando armas nas redes sociais e membros do próprio governo fazendo menção ao uso de armamentos.