Os crimes de guerra sob a análise de Walter Benjamin

A guerra se tornou uma arte pela arte, a morte pela morte, uma retórica propriamente dita, sem ninguém para se responsabilizar por ela, é a banalidade do mal sobre a qual nos adverte Hannah Arendt em seguida a Benjamin, o crime perfeito que não deixa suspeito, o crime pelo qual não há nenhuma culpa e nenhuma desculpa. A morte pela qual não há nenhuma dor, sofrimento, nem tão pouco ressentimento. É o fascismo injetado nas veias por uma bomba atômica ou de fósforo que mata por dentro, imediatamente, de uma vez, por explosão, mas também aos poucos, conduzindo à morte agonizante por ódio mobilizado pela retórica da guerra que incita uma nação a cometer crimes de guerra sem culpa alguma por ela e pelos mortos nela, pois a culpa é sempre dos outros.

A retórica fascista da guerra

O que vemos acontecer na Ucrânia não é apenas uma disputa territorial, mas também o retorno de antigos traumas de guerra e de uma retórica de guerra diferente a partir de cada envolvido. Por um lado, neonazistas ucranianos defendem a Ucrânia a partir do antigo ressentimento pela guerra perdida pelos nazistas alemães utilizando o nacionalismo como uma defesa do Estado contra minorias. Por outro, Russos se ressentem do avanço militar da OTAN em países do leste europeu em desacordo com os tratados pós-guerra e, em contrapartida a OTAN e demais países do mundo revivem os traumas com o comunismo numa ofensiva de sanções e restrições à Rússia somente comparável às sanções e restrições dos países capitalistas à Cuba.

As marcas e os traumas dos nossos conflitos cotidianos

Se as palavras que descrevem uma guerra na literatura e as imagens de guerra em filmes produzem tanto uma sensação de medo, terror e horror é porque nos violentam e deixam marcas que fazem o corpo gritar e chorar realmente, pois sabe que não são simplesmente fictícias, é uma realidade. E é uma realidade ainda mais para aqueles que vivem semelhante aos que vivem em guerra real, com os nervos à flor da pele, pois o cotidiano de conflito deixa marcas de violência como na guerra, violenta-nos e nos mata aos poucos com traumas profundos até a morte iminente. Ou seja, as marcas de guerra são vivenciadas por nós mesmo que não vivamos numa guerra de verdade, mas outros querem que vivamos, em constante retórica de guerra de uns contra os outros ao criarem inimigos fictícios que se tornam reais para nos traumatizar e traumatizar ainda mais com palavras e imagens aqueles que já vivem em conflito devido à violência cotidiana.

O desejo de guerrear como um delírio da violência da realidade na guerra

A retórica da guerra em tempos de paz é um desejo delirado de alguém delirante que é incapaz de viver em paz na realidade, quando a guerra delira o corpo e mente e o inconsciente, e suas máquinas desejantes, pulsa pela morte nas veias e no pensamento, e quando alguém já não se sente mais em segurança nem mesmo em casa. Tucídides, ao falar sobre as guerras entre os gregos antes da Guerra de Troia relatada por Homero em Ilíada, demonstra muito bem esse clima de insegurança vivido na realidade depois das guerras de pilhagem em que viviam os gregos.

Declaração de guerra e o excesso de violência legitimado

Quando se declara guerra se chegou a uma situação limite de violência, quando a opressão a quem e o que somos ou à identidade se tornou intolerável. É em defesa de uma identidade em geral que se declara guerra quando a violência a ela chega ao que se considera um limite. Neste sentido, a declaração de guerra é uma declaração de que a violência chegou ou deve chegar ao limite, deve ser limitada. O paradoxo teórico e prático em relação a isto é óbvio, pois se busca com a guerra limitar a violência senão com mais violência.

A militarização da sociedade

Uma sociedade guerreira é uma sociedade em alerta para a guerra, o que quer dizer, para a captura ou fuga em relação ao inimigo, que busca no seu ambiente e em si mesma meios de se assegurar quanto a isto, que espreita o inimigo e pensa de antemão que ele está à sua espreita. É uma sociedade panóptica vigiando tudo e todos inimigos, bem como uma sociedade paranoica se sentindo vigiada por tudo e por todos como inimigos. Todas as sociedades historicamente são mais ou menos guerreiras não importa o quão civilizadas sejam e a diferença entre elas no espaço e tempo é de grau e não evolutiva, dependendo do quanto se militarizam para a guerra, e a mais civilizada é onde há uma maior grau de militarização, a que é mais voltada para a guerra ao contrário do que se pensa.

Guerreiros ou guardiães?

Se o guerreiro militar é o tipo ideal de homem preparado para defender a sociedade e o Estado quando há guerra, contudo, ele é o tipo ideal de homem para guardar aqueles que vivem na sociedade e no Estado quando não há guerra? Qual o tipo ideal de homem para a Segurança Pública: o guerreiro ou o guardião?

Guerra é coisa de “macho”

Guerra é coisa de “macho”: Do direito natural de disputar a fêmea num combate mortal ao direito moral, cultural ou humano não há muita diferença. Qualquer diminuição dos homens como machos é uma justificativa para a violência e guerra, para se tornarem guerreiros, o símbolo primitivo do homem macho na antiguidade, ou se tornarem militares fardados, na modernidade. Toda mulher sabe que sua segurança e a de outros está em risco por causa disso.

As diferentes justificativas para a guerra

Dentro de suas reflexões sobre a relação entre segurança pública e guerra, o filósofo Jean Pierre enumera os diversos motivos alegados para que o conflito seja instaurado. Justificativas não faltam. No entanto, nem sempre o que está explícito no discurso oficial corresponde às causas reais pelas quais os sujeitos matam e morrem