O dilema da bancada parlamentar da segurança pública no Ceará

Apenas um representante das forças de segurança no Ceará foi eleito como parlamentar nas eleições deste ano. Na esfera do Poder Executivo, Capitão Wagner (União Brasil), que se apresenta como porta-voz dos policiais, foi derrotado para o Governo do Estado ainda no primeiro turno. O que isso quer dizer?

A falácia do “paradoxo das armas de fogo” ou “O paradoxo flamenguista das armas”

Vincular armas de fogo à religião tem sido uma estratégia para tornar essa prática mais tolerável. Não se trata de algo original, mas sim uma cópia do que tem sido feito nos Estados Unidos há décadas. Em uma propaganda política, uma candidata aparece com uma pistola na mão e uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida na outra. Não é possível afirmar se o armamento está sendo abençoado ou se a santa está sendo feita de refém. O ridículo da situação nos leva a esses questionamentos. Atribuir a queda nos assassinatos ao aumento das armas de fogo em circulação encobre o trabalho de inteligência feito nos últimos anos. Diversas operações vêm sendo realizadas com o objetivo de desarticular lideranças e asfixiar as rotas financeiras de grupos criminosos. Tais medidas são muito mais eficazes para a redução da criminalidade e da violência do que um bando de homens brancos e ricos portando pistolas por aí.

A quem interessa a violência política?

Enquanto escrevia essa coluna, recebi a notícia de que um guarda municipal foi assassinado em sua festa de aniversário de 50 anos, em Foz do Iguaçu (PR). O tema da comemoração homenageava o ex-presidente Lula. Um policial penal invadiu o local armado aos gritos de “É Bolsonaro” e falando palavrões. Em seguida, disparou contra a vítima. Mesmo baleado, o guarda conseguiu reagir e efetuou cinco disparos no agressor, que foi levado ao hospital e não corre risco de morte.
Esse atentado é o ponto culminante de uma sequência de casos aparentemente isolados ocorridos nas duas últimas semanas e que elevaram a temperatura de um pleito que, por si só, seria incandescente: drone jogando dejetos em ato de campanha em Minas Gerais; bomba de fezes lançada em evento político no Rio de Janeiro; redação de jornal sendo alvejada em São Paulo e carro de juiz alvo de ataque. Tudo isso sem levar em consideração os diversos parlamentares ameaçados de morte por sua atividade pública. A quem interessa esse atos violentos?

E se Jesus tivesse comprado uma pistola?

A história do Messias reescrita em um tom belicista, como descrita nesse breve conto, mostra o quão absurda é a vinculação entre cristianismo e a cultura armamentista atual. Trata-se de uma atitude de quem passou ao largo da leitura dos evangelhos. Há quem possa chamar esse fenômeno de “negacionismo cristão”. Jesus Cristo nunca pregou a violência armada, embora tivesse sido provocado a fazer isso. Se houvesse algum armamento parecido com pistola em sua época, certamente Ele teria sido morto com um tiro na cabeça em vez de ser crucificado.

Armamentismo: o que é ruim para os EUA é péssimo para o Brasil

Cultura armamentista estadunidense vem sendo replicada de forma acrítica pelo Governo Federal no Brasil como forma de minar o que há de público na área da segurança. Política resultou em aumento de mortes violentas e insegurança, tornando o EUA o país mais violento entre os mais ricos. Chacinas se alternam semana pós semana. No fim de semana, atletas da NBA se juntaram às críticas à falta de controle estatal sobre a circulação de armas de fogo. Essa falta de controle fez com que os Estados Unidos saltassem de 37 mil mortes por armas de fogo, em 2019, para 45 mil, no ano seguinte. Em números absolutos, o país só fica atrás do Brasil, cujas cifras giraram em torno de 50 mil no mesmo período. Das nações mais desenvolvidas, os EUA são, certamente, os mais violentos. A taxa de homicídio na “Terra dos Bravos” é 23 vezes maior que a da Austrália e 22 vezes maior que a da União Europeia como um todo. É esse o modelo de segurança que mais interessa ao Brasil?

Sobre a crença fetichista no poder das armas de fogo

Há um pensamento mágico muito disseminado no Brasil de que estaremos todos mais seguros se andarmos armados por aí. “Cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio 38”, como cantava Renato Russo. Trata-se de uma ideia tão estapafúrdia que não vale nem a pena discuti-la, em especial pelo fato que se trata de um debate viciado por ser patrocinado justamente por quem tem mais interesse em que a população adquira seus bens e produtos, ou seja, a indústria armamentista. Por que a crença na arma de fogo como proteção para todos os males ainda resiste? A resposta é complexa, mas a resposta diz respeito à dimensão fetichista inerente ao armamento que passa ao largo de qualquer explicação racional. Há até mesmo um termo clínico para isso: hoplofilia, ou seja, um amor exagerado por armas de fogo. Mais que um instrumento de proteção, a demanda oculta dos portadores de armas de fogo consiste em suprir uma carência no interior de uma masculinidade militarizada.

Frente Parlamentar pelo Controle de Armas, pela Paz e pela Vida será lançada no Senado

O registro de novas armas de fogos cresceu 300% em 2021 no Brasil. A escalada armamentista ganhou tração com o novo governo federal, que vê no armamento de segmentos da população sua principal proposta na área da segurança pública. O recorte do perfil socioeconômico dos usuários é uma mostra sobre a quem interessa esse projeto. Como uma forma de barrar esse processo, será lançada, nesta terça-feira (22), às 19h, no Senado Federal, a Frente Parlamentar pelo Controle de Armas, pela Paz e pela Vida.

Quem tem medo de Marielle Franco?

Rua do bairro Conjunto Esperança, em Fortaleza, que recebeu o nome da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em março de 2018, é alvo de vandalismo. A maioria das placas indicando a denominação da vida foram arrancadas. Para historiadores e moradores do bairro, a ação vai além do vandalismo comum, sendo resultado da intolerância política vivida nos tempos atuais. Os entrevistados criticam ainda a falta de maior participação da comunidade na tomada de decisão sobre mudanças no local em que moram.

Em Fortaleza, Sergio Moro cobra o crédito ao seu Ministério por queda dos homicídios no Ceará em 2019

Embora tenha permanecido pouco tempo à frente do Ministério da Segurança Pública, Sergio Moro teve de lidar com dois momentos-chave da história recente do Ceará. O primeiro deles foram os ataques das facções ocorridos em janeiro de 2019. “O problema dos atentados foi muito grave. A gente não hesitou nem por um minuto. Formamos, desde o início, um gabinete de crise no Ministério para fazer o planejamento necessário para atender o Estado antes ainda que o presidente nos desse o sinal verde para tomar essa decisão. Mandamos Força Nacional, criamos uma força de intervenção penitenciária e transferimos as lideranças criminosas do Ceará para presídios federais”, enumera. O presidenciável atribuiu ainda a queda dos homicídios no Ceará naquele ano à sua atuação à frente do Ministério da Segurança Pública, em especial no processo de reordenamento do sistema penitenciário, foco da insatisfação dos grupos criminosos à frente dos ataques: “Negar a atuação do Ministério da Segurança Pública na queda dos homicídios em 2019 é um argumento falacioso”, disse.

Moïse, Mateus e Durval: a licença para matar pretos e pobres no Brasil

Desde a nossa colonização, somos uma nação constituída por uma elite predatória e racista que se mantém em guerra permanente contra sua própria população. Por mais que o país tenha passado por um processo de modernização, essa condição teima em permanecer sob as configurações mais diversas. O que se quer, na verdade, é a concessão do direito ilimitado de eliminar a vida alheia. Mas não é qualquer vida, por óbvio. O presente artigo amplia o debate sobre os recentes casos ocorridos no Rio de Janeiro e no Ceará.