A quem interessa a violência política?

A violência política alimenta-se de discursos de ódio e líderes políticos que pregam a eliminação dos adversários políticos. Vivemos em uma cidadania erodida na qual a esfera da política compreendida como uma gestão do bem comum se degenerou em uma arena de combate onde os contendores estão em condições desiguais.

Por Ricardo Moura

As candidaturas ainda não são oficiais, mas, com raríssimas exceções (entre elas o Ceará), já é possível divisarmos os nomes que concorrem às eleições deste ano. O clima de campanha eleitoral começa a ganhar as ruas. Em breve, se tornará assunto hegemônico nas rodas de conversa. Embora o fazer político seja muito mais amplo, é no período das eleições em que ele se torna mais vistoso e festivo. A pouco menos de três meses para a eleição, no entanto, é possível perceber sinais preocupantes de que a violência política será uma presença inescapável nesse processo.

Enquanto escrevia essa coluna, recebi a notícia de que um guarda municipal foi assassinado em sua festa de aniversário de 50 anos, em Foz do Iguaçu (PR). O tema da comemoração homenageava o ex-presidente Lula. Um policial penal invadiu o local armado aos gritos de “É Bolsonaro” e falando palavrões. Em seguida, disparou contra a vítima. Mesmo baleado, o guarda conseguiu reagir e efetuou cinco disparos no agressor, que foi levado ao hospital e não corre risco de morte.

Esse atentado é o ponto culminante de uma sequência de casos aparentemente isolados ocorridos nas duas últimas semanas e que elevaram a temperatura de um pleito que, por si só, seria incandescente: drone jogando dejetos em ato de campanha em Minas Gerais; bomba de fezes lançada em evento político no Rio de Janeiro; redação de jornal sendo alvejada em São Paulo e carro de juiz alvo de ataque. Tudo isso sem levar em consideração os diversos parlamentares ameaçados de morte por sua atividade pública.

Vale ressaltar que política e violência possuem uma relação bastante intrínseca. Relatos de atentados e agressões ocorrem desde sempre na história humana. O relatório “Violência Política e Eleitoral no Brasil – Panorama das violações de direitos humanos de 2016 a 2020”, elaborado pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, revelou que, no período abrangido pelo levantamento, foram registrados 327 casos de violência contra representantes eleitos.

A pesquisa identificou 125 assassinatos e atentados, 85 ameaças, 33 agressões, 59 ofensas, 21 invasões e 4 casos de prisão ou tentativa de detenção de agentes políticos. Nas eleições municipais de 2020, por exemplo, 25 candidatos foram mortos durante o período eleitoral.

Lideranças políticas não estão imunes a serem atacadas até mesmo em um país que registrou apenas uma morte por armas de fogo em 2021, como o Japão. Na semana passada, o ex-primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, foi assassinado com dois tiros enquanto discursava para eleitores. O atirador foi preso logo em seguida. De acordo com a polícia, a arma utilizada, uma espingarda de cano curto, era de fabricação caseira.

A constância com que esses crimes são cometidos não implica dizer que se deva naturalizar tal condição. Pelo contrário. A ação com fins violentos é corrosiva às instituições e aos próprios fundamentos do sistema democrático. A tentativa de intimidar adversários políticos e eleitores cumpre, pelo menos, duas funções: a) inibir qualquer possibilidade de contestação sobre determinado governo e b) manipular o resultado das urnas.

O papel dos governantes é decisivo nessa circunstância. O que a sociedade espera é que a violência seja condenada publicamente e os autores identificados, investigados e punidos a fim de que novas ocorrências desse gênero sejam desencorajadas. Nos últimos anos, contudo, o próprio discurso da política tornou-se repleto de palavras e termos violentos. Os exemplos são os mais variados tanto no Brasil quanto em países que se arvoram exemplos de democracia como os Estados Unidos.

Além disso, é muito comum assistirmos a autoridades e lideranças endossando atitudes beligerantes de forma indiscriminada a começar pelo presidente da República, uma figura pública que deveria ser a primeira a repudiar atos de violência de cunho político, mas cuja bandeira de campanha é o símbolo de uma arma feita com as mãos. Ao comentar o ocorrido em Foz de Iguaçu, em nenhum momento o dirigente responsabiliza o agressor preferindo repisar os mesmos argumentos de que a esquerda seria violenta.

Não à toa, discursos de ódio e preconceituosos são proferidos atualmente sem o menor pudor. A imposição da vontade individual pela força e o menosprezo por tudo que é coletivo são marcas de uma cidadania erodida em que a esfera da política compreendida como uma gestão do bem comum se degenerou em uma arena de combate onde os contendores estão em condições desiguais.

Muito haveria de ser dito sobre essa questão, mas a limitação de espaço não me permite. A título de conclusão provisória fica o questionamento: a quem interessa essa situação? Resposta breve e simples: aos defensores de um regime autoritário cujo opositores tenham sido eliminados. Trata-se da morte do antagonismo na política, elemento constituinte dos sistemas democráticos. Mais que a disputa de propostas divergentes, o que está em jogo, nestas eleições, é a capacidade de elegermos nossos representantes.

Sobre a imagem. O policial penal Jorge Guaranho (à esq.) defendia o uso de armas e falava em “limpar” o Brasil do PT. Em sua rede social, aparece ao lado de um dos filhos do presidente. Marcelo Arruda(à dir.) era guarda municipal e comemorava seus 50 anos quando foi assassinado.

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