Sobre a crença fetichista no poder das armas de fogo

Por que a crença na arma de fogo como proteção para todos os males ainda resiste? A resposta é complexa, mas a resposta diz respeito à dimensão fetichista inerente ao armamento que passa ao largo de qualquer explicação racional. Há até mesmo um termo clínico para isso: hoplofilia, ou seja, um amor exagerado por armas de fogo. Mais que um instrumento de proteção, a demanda oculta dos portadores de armas de fogo consiste em suprir uma carência no interior de uma masculinidade militarizada.

Por Ricardo Moura

Há um pensamento mágico muito disseminado no Brasil de que estaremos todos mais seguros se andarmos armados por aí. “Cada criança com seu próprio canivete, cada líder com seu próprio 38”, como cantava Renato Russo. Trata-se de uma ideia tão estapafúrdia que não vale nem a pena discuti-la, em especial pelo fato que se trata de um debate viciado por ser patrocinado justamente por quem tem mais interesse em que a população adquira seus bens e produtos, ou seja, a indústria armamentista.

As evidências de que o atual governo possui uma relação que beira a promiscuidade com empresas nacionais e internacionais de armas e munições são fartas: financiamento de campanha, numerosas reuniões e audiências entre representantes de ministérios e lobistas e empresários do setor, viagens pagas a eventos, editais manipulados, decretos permissivos, divulgação de marcas em redes sociais etc. Uma rápida pesquisa no Google com os termos “Bolsonaro + indústria das armas” já é o bastante para se ter uma noção exata sobre quem realmente dá as cartas nessa competição de mata-mata.

Como tudo nesse governo, a terceirização é a marca da política pública de segurança. Evito usar a expressão “segurança pública” pois não se trata mais disso. O artigo 144 da Constituição Federal soa como letra morta nesta gestão: “A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, sob a égide dos valores da cidadania e dos direitos humanos, através dos órgãos instituídos pela União e pelos Estados”.

Onde se encontra o dever do Estado quando ele próprio abre mão de seu papel constitucional para atender interesses comerciais? O que pode ser identificado como valores de cidadania e dos direitos humanos nas atuais políticas? Escrito em 1988, o artigo da CF sobre segurança pública parece evocar um mundo tão extinto quanto o dos dinossauros.  

O que temos em vigor, neste momento, é um acelerado processo de terceirização da responsabilidade sobre a própria defesa levado a cabo pelo próprio poder público dentro da margem de manobra permitida pelo Estatuto do Desarmamento. Vale destacar que, assim como ocorre com a isenção seletiva de impostos, a privatização do uso de armamentos possui um público demarcado e seleto formado por membros do sistema de justiça criminal, caçadores, atiradores esportivos e colecionadores (CACs), bem como empresários que disponham de milhares de reais para gastar com armas e munições. Como se pode ver, não há bote salva-vidas para todo mundo no nosso Titanic tropical.

Se a atual política beneficia apenas quem já é privilegiado, por que a crença na arma de fogo como proteção para todos os males ainda resiste? A resposta é complexa, mas um dos elementos para elucidá-la é o caráter fetichista inerente ao armamento que passa ao largo de qualquer explicação racional. Desde sempre a virilidade foi associada às armas. Há até mesmo um termo clínico para isso: hoplofilia, ou seja, um amor exagerado por armas de fogo.

Conforme explica o professor Roderick McGills, da Universidade de Calgary, a “arma é um substituto para algo perdido”. “A relação do homem com sua arma é uma relação que encobre uma falta, uma inadequação e uma incompletude. Ao carregar uma arma, o homem pode se sentir completo, forte e confiante enquanto no resto do tempo permanece insatisfeito”, argumenta.

Mais que um instrumento de proteção, a demanda oculta dos portadores de armas de fogo consiste em suprir uma carência no interior de uma masculinidade militarizada em que a “hombridade” confunde-se com o uso “sancionado da agressão, da força e da violência”. Não à toa, membros do atual governo volta e meia se valem de termos relacionados à sexualidade, como se a impotência sexual pudesse ser compensada pela potência imaginária de uma pistola 765.

O resultado perverso do sequestro do debate público sobre o controle e o registro de armas de fogo, migrando do campo da segurança pública para uma mera necessidade de proteção individual, já pode ser visto: na quantidade de agentes de segurança atacados para que seu armamento seja tomado; nos casos em que colecionadores de armas abastecem o crime organizado e no empoderamento cada vez maior dos valentões de classe média que se valem de revólveres e pistolas como recurso para se imporem.   

A expressão “aprendiz de feiticeiro” costuma ser aplicada àqueles magos que desencadeiam forças às quais não possuem mais controle, em que a ânsia pelo poder fala mais alto que a precaução. Temos um exemplo bem-acabado disso em relação à perspectiva de liberação indiscriminada do porte e da posse de armas de fogo. As principais vítimas dessa política desarrazoada não serão os alvos propagados pelo marketing da indústria armamentista, mas aquelas pessoas que, por um momento, ousaram defender a adoção de tal medida. 

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