Guerreiros ou guardiães?

Por Jean Pierre

Quando dissemos no último texto que guerra é coisa de macho buscamos enfatizar a relação da guerra com os homens, não todos os homens de modo universal, mas com um tipo ideal de homem, diria Max Weber, o macho. Com isso não se pretendia afirmar um gênero específico e único para a guerra e, sim, tentar demonstrar brevemente a partir do conceito de honra como histórica, social e politicamente a guerra mobiliza os homens machos para defenderem a sociedade como guerreiros ou o Estado como militares e, algumas vezes, como milicianos contra quem é considerado inimigo da sociedade, os criminosos, ou do Estado, os terroristas que também se defendem como macho em suas facções e organizações. Neste sentido, os guerreiros militares se tornam os “guardiões do Estado”, pessoas que devem montar guardar para proteger o Estado como policiais militares, uma cidade como guardas municipais ou uma localidade como milicianos, mas também os integrantes de uma facção ou faccionados, pois, não por acaso uma das insígnias de facções criminosas do Ceará se autodenomina “Guardiões do Estado”, todos estes representantes do tipo ideal de homem, o macho.

A questão a qual buscamos pensar a partir de agora é a seguinte: se o guerreiro militar é o tipo ideal de homem preparado para defender a sociedade e o Estado quando há guerra, contudo, ele é o tipo ideal de homem para guardar aqueles que vivem na sociedade e no Estado quando não há guerra? Qual o tipo ideal de homem para a Segurança Pública: o guerreiro ou o guardião?

A questão entre guerreiros e guardiões é bastante antiga e remete à Guerra de Troia quando Homero idealiza dois tipos de homem, um mais macho que o outro, por assim dizer. O primeiro é Aquiles, homem macho por excelência, que tem a virtude guerreira, que se prepara exclusivamente para a guerra e quer se tornar herói e mito, ou seja, que se fale dele e sejam narradas suas batalhas como faz Homero na obra Ilíada. O outro é Odisseu (ou Ulisses), não tão macho assim, que se finge de louco para não ir para a guerra contra Troia e só vai para ela para defender sua honra e não a de Menelau traído por Helena, já que seu único objetivo é voltar vivo para casa e cuidar do filho que tem e do que vai nascer, pois Penélope, sua mulher, está grávida, e faz de tudo para conseguir isso depois da guerra mesmo com os vários obstáculos no caminho como narra Homero em sua obra Odisseia.

No que diz respeito à Segurança Pública atual, o homem verdadeiro é o mais macho de todos, Aquiles, pois se diz que o policial militar deve ser  guerreiro como ele, e também os guardas municipais e muitos homens que querem ter o direito de se armar para defenderem a cidade como guerreiros. Neste sentido, há uma defesa da militarização que quer dizer senão preparação para a guerra. Mas contra quem? De que Estado? Que povo? Que inimigo?

Baruch de Spinoza, filósofo holandês do século XVII, em seu Tratado político,diz que há dois inimigos do Estado: um externo, outro Estado, e um interno, seu povo. Neste sentido, podemos dizer que se não há uma guerra do Estado ou Estados brasileiros contra um inimigo externo, a militarização ou preparação para a guerra é contra o povo brasileiro como inimigo. Algo estranho para um Estado democrático de direito em que o povo não é inimigo e os militares não podem se voltar contra ele, pois isto só acontece em ditaduras militares, tiranias e no fascismo quando há uma militarização do Estado e um “Estado de Exceção”. No caso, um Estado que defende o excesso de violência dos militares e de civis armados para uma guerra contra os cidadãos “inimigos” ou “maus cidadãos”, “maus brasileiros” no caso que devem ser vigiados, julgados e violentados de todas as formas e até a morte como se o Estado estivesse numa guerra de fato e por direito.

Uma guerra por vir, como dissemos em outro texto, se torna então uma justificativa para a militarização da sociedade e do Estado contra um inimigo que agora é outro, não outro povo de outro Estado, tão somente outro, o que quer dizer qualquer um: o familiar, vizinho, colega de escola ou trabalho, amigo de longa data que passa a ser um inimigo político, isto é, do Estado que deve se militarizar para combatê-lo, reforçando as Forças Armadascomo mais dinheiro e o cidadão se armando como um guerreiro, um militar, um patriota em defesa do Estado pelas armas, não pelo direito, de modo justo, como cidadão.

Aquiles é, portanto, o homem macho que só sabe viver em guerra e conviver em guerra na sociedade vendo todos como inimigos, que quer se armar para defender o Estado dos criminosos e senão por isso se torna policial militar ou guarda municipal, mas também um “guardião do Estado”, um faccionado a defender a localidade que domina cometendo crime, ou ainda, um miliciano cometendo crime em defesa do Estado. É o homem que precisa da guerra para se sentir útil para a sociedade, pois sem a guerra o guerreiro militar é um inútil.

Em relação a isto, Odisseu, o menos macho, é o tipo ideal de homem como guardião da sociedade quando não há guerra, pois quer trabalhar para sua família e sociedade, mas também está preparado para a guerra, mais do que Aquiles, por saber voltar vivo para casa, sua família, para a sociedade.

Sobre a imagem. Odisseu, nome grego de Ulisses, é um dos mais ardilosos guerreiros de toda a epopeia grega. Sua trajetória, repleta de reviravoltas, é narrada por Homero em Ilíada e, mais especificamente, em Odisseia, duas obras fundamentais para a literatura ocidental e que serviram como material para inúmeras releituras.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE. Escreve quinzenalmente no Blog Escrivaninha.

2 comentários em “Guerreiros ou guardiães?

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