Os crimes de guerra sob a análise de Walter Benjamin

Não há heróis numa guerra, apenas criminosos. Militares são criminosos numa guerra. Tudo que fazem são crimes de guerra, crimes em defesa de uma guerra santa, idealizada por eles em batalha, seja em nome de deus, seja em nome do Estado, ou ainda, em nome de si mesmos, em busca de um heroísmo com a morte, a sua, mas, sobretudo, a do outro, a que lhe conferirá medalhas e um sono tranquilo, pelo menos até a próxima guerra, caso não tenha traumas de guerra. Uma guerra que sempre existirá para aqueles que fazem dela a última palavra de suas vidas, a derradeira palavra de orgulho de uma vida vivida para a guerra, isto é, para a morte, matando e morrendo pelo ideal da guerra, pela retórica fascista que faz a guerra interminável mesmo depois da morte, porque a morte não é seu fim, é senão o começo de uma nova guerra, como busquei argumentar no texto anterior.

Por Jean Pierre

Em sua Teoria do fascismo alemão –  Sobre a coletânea “Guerra e guerreiros”, editada por Ernest Jünger, Walter Benjamin demonstra a diferença entre a guerra e o que os guerreiros pensam dela a partir de uma “experiência da guerra”. Essa diferença é mostrada a partir da perda da guerra e de como os alemães mobilizaram a primeira grande guerra perdida transformando-a na oportunidade de uma nova guerra, não de uma hora para outra, imediatamente, e, sim, paulatinamente, como bons capitalistas. Primeiramente, começaram a “transmutar a derrota numa vitória interna, através da culpa generalizada para toda a humanidade”, depois fizeram “esquecer a guerra perdida”, por fim, levaram “mais a sério a perda da guerra que a própria guerra”. Neste último estágio, começaram a filosofar sobre a perda da guerra: “O que significa ganhar ou perder uma guerra?” A resposta a esta pergunta é, senão, “o que significa a guerra em sua totalidade (grifos meus), indica como o seu desfecho (grifos do autor) para nós altera seu modo de existência (grifos do autor) para nós.” Neste sentido, conclui Benjamin, “Ganhar ou perder uma guerra, segundo a lógica da linguagem, é algo que penetra tão fundo em nossa existência que nos torna, para sempre, mais ricos ou mais pobres em quadros, imagens e invenções.” (p. 65)

Ganhar ou perder uma guerra faz diferença para todos os envolvidos nela e, desde a Primeira Guerra dita Mundial, para todo mundo. Isto quer dizer que modifica a nossa existência não sendo o seu desfecho um fim de fato, pois é isto o que a palavra desfecho quer dizer em seu sentido duplo, como a ideia de que algo se fecha, mas não se fecha de fato, neste caso, a guerra, cujo fim é sempre o início de outra guerra. E o que faz do fim de uma guerra ser o princípio de outra é, de modo retórico, mas também prático, aquilo que Léon Daudet diz sobre o Salão do Automóvel, segundo Benjamin neste mesmo texto, de que “‘L’automobile c’est la guerre.’” Ou, segundo uma tradução livre aqui, invertendo o dito: A guerra é automóvel.

O que faz a guerra ser automóvel é aquilo que Benjamin ressalta em seguida, no caso, “uma aceleração dos instrumentos técnicos, seus ritmos, suas fontes de energia, etc.”, da própria guerra, que encontra em si mesma um meio para continuar viva. Esta aceleração dos instrumentos, segundo ele, não encontra, como o automóvel propriamente dito, uma utilização no nosso cotidiano, somente na guerra encontrando uma justificativa, pois, estes instrumentos técnicos “renunciam a todas as interações harmônicas”. São máquinas de guerra, podemos dizer. A diferença entre o automóvel cotidiano e o automóvel de guerra, seja ele um carro, caminhão ou avião, ou exército em movimento, e, hoje em dia, drones, ou ainda, a própria guerra em sua totalidade material, é a utilização que se faz do automóvel ou da técnica como esclarece Benjamin ao destacar que a utilização das técnicas na guerra “prova com suas devastações que a realidade social não está madura para transformar a técnica em seu órgão e que a técnica não é suficientemente forte para dominar as forças elementares da sociedade” (p. 61). No caso, a realidade social produzida pela burguesia ou pelo capitalismo não está madura porque “não pode deixar de separar, na medida do possível, a dimensão técnica da chamada dimensão espiritual e não pode deixar de excluir as ideias técnicas de qualquer direito a coparticipação na ordem social” (p. 61).

Existe, neste sentido, uma diferença entre a guerra material e a guerra idealizada pelos guerreiros a partir de uma experiência da guerra, principalmente quando aquela mostra os horrores da guerra, o que acontece no front na realidade, diferente da mostrada pelos guerreiros que exaltam a guerra, de modo retórico, com heroísmo, inclusive da morte. A questão da perda com que lidam os guerreiros se perguntando o que é ganhar ou perder uma guerra é senão um processo de luto no qual lidam com a morte, no fim, exaltando-a como algo heróico, algo que é ultrapassado, segundo Benjamin, pelo armamentismo europeu em sua época, e ainda mais depois da Segunda Guerra Mundial e a bomba atômica lançada pelos Estados Unidos em Hiroshima e Nagasaki, diríamos hoje. A diferença entre a guerra material e a guerra idealizada pela experiência da guerra pode ser resumida nesta frase: “Contra ataques aéreos por meio de gases não existe, ao que se sabe, nenhuma defesa eficaz.” E mesmo que se saiba um modo de se defender, num momento seguinte, uma técnica é criada para romper a defesa, como a “descoberta de um avião silencioso”.

O que está em questão na diferença entre a guerra material, ou real, e a guerra idealizada, espiritual e mítica da retórica fascista militar é, além da questão filosófica sobre ganhar ou perder uma guerra, a questão prática de como se produz a morte do outro, isto é, como se comete crimes de guerra, pois, observa Benjamin, a guerra material a partir da aceleração dos instrumentos técnicos “promete dar à guerra futura um aspecto esportivo (grifo meu) que superará as categorias militares e colocará as ações guerreiras sob o signo do recorde.” A guerra futura, a segunda, a fascista, a qual ele temia, será uma guerra ofensiva e não de defesa de trincheiras como a primeira. Nada mais de heroísmo, pois não há mais luta homem a homem até a morte, como exaltado por Homero na Ilíada entre Aquiles e Heitor. O automóvel substituiu o homem na guerra. Os crimes de guerra passam a ser seus, sem qualquer responsabilidade sobre aqueles que o utilizam, os senhores da guerra, de cujos crimes saem impunes sem responsabilidade e culpa alguma.

A guerra automóvel retirou do homem a guerra propriamente dita, deixando-os sem honra, sem heroísmo, como se ressentem os fascistas alemães, e isto é o pior para os guerreiros machos vencidos, pois, como diz Benjamin, “o vencedor conserva a guerra, o derrotado deixa de possuí-la; (…) é obrigado a viver sem ela.” O homem deixa de ser o senhor da guerra, pois a guerra é senhora de si mesma ao se tornar automóvel. Não há mais crimes de guerra, pois não há mais nenhuma responsabilidade e culpa por ela. A guerra se torna uma arte pela arte, a morte pela morte, uma retórica propriamente dita, sem ninguém para se responsabilizar por ela, é a banalidade do mal sobre a qual nos adverte Hannah Arendt em seguida a Benjamin, o crime perfeito que não deixa suspeito, o crime pelo qual não há nenhuma culpa e nenhuma desculpa. A morte pela qual não há nenhuma dor, sofrimento, nem tão pouco ressentimento. É o fascismo injetado nas veias por uma bomba atômica ou de fósforo que mata por dentro, imediatamente, de uma vez, por explosão, mas também aos poucos, conduzindo à morte agonizante por ódio mobilizado pela retórica da guerra que incita uma nação a cometer crimes de guerra sem culpa alguma por ela e pelos mortos nela, pois a culpa é sempre dos outros.

O que Benjamin talvez não tenha percebido é que nenhuma teoria ou retórica se adequa tão bem à aceleração dos instrumentos técnicos da guerra como a fascista, ao acelerar com a “opinião pública” e “liberdade de expressão” o coração, mente e corpo da massa e horda humana mobilizando-a para a guerra como fizeram os autores que ele analisa, pois “obtiveram a certeza de que ‘as abominações da última guerra foram transformadas em algo grandioso e terrível’, perceberam o simbolismo do ‘sangue fervendo para dentro’!”

Sobre a imagem. Militares se abrigam em meio a trincheiras da Primeira Guerra Mundial.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE.

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