Covid-19: luto e dor pela perda dos familiares na pandemia

Na quarta reportagem da série sobre mortes de profissionais da segurança pública por Covid-19, abordamos os relatos de familiares que perderam seus entes por causa da doença. Tratam-se de dramas pessoais que não aparecem nas estatísticas e muito menos nos relatos oficiais sobre a pandemia

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

Os números de profissionais da segurança pública mortos pela Covid-19 divulgados pelo Blog Escrivaninha revelam o grau de letalidade da doença e dos riscos de quem trabalha na linha de frente da prevenção. No entanto, essa estatística se mostra insuficiente para que possamos compreender o sentimento e a dor das famílias. Cada perda é um universo de sofrimento inestimável. Descrever a história de quem perdeu um familiar na pandemia é uma forma de sair da frieza dos dados no intuito de revelar uma dimensão dolorosa e única desse mal que nos aflige há mais de um ano.

Jocélio Pereira e seu pai, Josenias Gomes Pereira

Desejo de ver a corporação reconhecida e valorizada

A morte do soldado PM Jocélio Melo Pereira, de 32 anos, foi noticiada no Blog Escrivaninha em abril. Na reportagem, foram revelados, por meio de conversas no WhatsApp, a dificuldade de o militar conseguir atendimento médico adequado, as condições insalubres de trabalho e a queixa pela falta da vacinação até aquele momento, bem como o temor perante a realidade da morte. Josenias Gomes Pereira, pai do soldado PM, relatou o sonho e esforço do filho para ingressar na carreira militar. Antes de ser aprovado no concurso, Jocélio Pereira trabalhou como vigilante no Hospital do Coração e foi socorrista no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) por quatro anos.

O pai também destacou o amor, o comprometimento e a disciplina que Jocélio tinha por seu ofício na polícia militar. “Essa era a profissão escolhida por ele, um sonho realizado. Ele amava ser policial e amava o que fazia. Sempre foi uma pessoa bem comportada e que esteve ao lado e à disposição da sociedade”, comenta.

No entanto, Josenias também narra as dificuldades que o militar viveu durante a pandemia, como a falta de fornecimento de máscaras e álcool em gel para a higienização das viaturas. Os insumos foram disponibilizados no início da pandemia, em 2020, mas logo tiveram de ser desembolsados pelos próprios policiais. Além disso, o pai do soldado acredita que Jocélio foi infectado pelo Coronavírus durante o trabalho, enquanto acompanhava um preso no Instituto Dr. José Frota (IJF).

Josenias conta que o policial, já hospitalizado, pediu para que os filhos, um de seis anos e outro três, ficassem sendo assistidos pela família: “Isso é um legado que nós vamos cumprir e levar para a eternidade, porque os dois filhos necessitarão muito das nossas presenças na vida deles”. Outro desejo do soldado PM era o de ver a corporação policial mais reconhecida e valorizada.

Com o início da vacinação dos agentes de segurança, Josenias Pereira sente uma revolta pela imunização não ter ocorrido antes e pelo filho não ter tido o direito de prestar seu serviço de maneira segura, tendo sua vida preservada. O pai se considera um homem de fé. A família enlutada não procurou ajuda psicológica, mas tem buscado a espiritualidade para alcançar tranquilidade e força.

Cleudimar Sousa e o marido, Adriano de Queiroz

Amor pela profissão e perfeccionismo

A contadora Cleudimar Sousa Alencar de Queiroz perdeu o marido, o subtenente PM Francisco Assis Adriano de Queiroz, de 51 anos, também em abril. A viúva conta que o policial amava sua profissão e, como consequência disso, era perfeccionista. A mulher revela que o sargento Adriano sempre desempenhou sua função com muita responsabilidade. Mesmo quando estava doente, não solicitava atestado médico, indo sempre para o trabalho. Quando as datas comemorativas se chocavam com a escala de trabalho, elas tinham de ser reajustadas no calendário da família.

Adriano de Queiroz Filho passou a fazer parte da Policia Militar em 1994. Na corporação, atuou no serviço reservado, na Coordenação de Inteligência (Coin) e, mais recentemente, estava lotado na Polícia Rodoviária Estadual (PRE). Apesar do subtenente trabalhar viajando, Cleudimar ressalta que o militar era muito presente na vida dos filhos. “A família e a profissão eram as prioridades da vida dele”, declara.

Por causa da Covid-19, diversos planos do subtenente foram interrompidos, como a aposentadoria, o sonho de montar um comércio com a esposa e a expectativa de ver o filho estudando no Colégio da Policia Militar. Cleudimar, contudo, promete dar continuidade à educação e à formação das crianças, um dos anseios do marido.

Imersos no luto, Cleudimar afirma que ela e os três filhos (dois meninos de 11 e 7 anos e uma menina de 5 anos) atravessam esse momento difícil entre lágrimas e oração. A esposa contou que, em uma das orações da filha, a menina pediu a Deus que desse mais uma chance ao pai, para que ele voltasse para casa. Cleudimar comenta que busca confortar aos filhos e a si mesma por meio da leitura da bíblia e professando sua fé evangélica.

Com o início da vacinação dos profissionais da segurança pública, Cleudimar vive um misto de emoções. O sentimento de revolta se dá principalmente pela demora com que a iniciativa foi tomada, uma vez que poderia não teria perdido o marido e amigos PMs. Há também uma sensação de felicidade pelas famílias que não passarão pela dor que está sentido e com o fato de que muitos policiais terão suas vidas salvas daqui por diante.

O luto na PM

Psicóloga clínica há mais de 10 anos e fundadora da Assessoria de Assistência Biopsicossocial (Abips) da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), Rebeca Rangel afirma que a sensação de heroísmo carregada pelos policiais, isto é, que eles têm que dar conta de tudo e ajudar a todos ocasiona a dificuldade de expressar sentimentos, como o choro e a tristeza: “Isso prejudica a experiência do luto, pois para vivenciar esse período é necessário entrar em contato com o que está machucando. Essa realidade ficou bem visível durante a pandemia”.

Outra caraterística que a psicóloga ressalta é uma união entre os “irmãos de farda” (como os policiais se chamam entre si) em momentos como esse. “Quando um morre, a corporação se mobiliza para prestar ajuda à família enlutada”, explica.

De acordo com a psicóloga Mariana Virgínio, especialista em terapia analítico-comportamental, os estudos científicos revelam que o luto possui cinco fases. A primeira é a negação e isolamento. O segundo estágio é a raiva, sentimento provocado por estar perdendo uma fonte de bem-estar. O terceiro estágio é a barganha, que tem como característica a negociação, por exemplo: questionamentos sobre o que poderia ter sido feito para aquela morte não ter acontecido e a negociação para a volta do ente querido.

O quarto estágio é marcado pela depressão: é quando ocorre a consciência de que a realidade não pode ser mudada. Essa fase pode ser percebida a partir da diminuição do engajamento. Não executar as atividades habituais é um exemplo disso. O último estágio é a aceitação.

Para superar esse momento, Mariana Virgínio destaca que é importante acolher, entender e viver sua dor. Ter uma rede de apoio é importante, explica, para que se possa contar com pessoas ao seu lado que compreendam suas aflições. A psicóloga afirma ainda que quem vive um luto é porque amou demais. Trata-se de um preço a ser pago por ter vivido plenamente esse sentimento.

SOBRE A SÉRIE

Nesta série de reportagens, abordamos a dificuldade enfrentada pelos profissionais de segurança pública durante a pandemia, bem como o luto e a dor das famílias que perderam seus entes. Confira as matérias publicadas anteriormente:

Número de policiais militares mortos por Covid-19 no Ceará chega a 42

Rotina da Polícia Civil muda na pandemia; mortos pela Covid-19 chegam a 10

Covid-19: Guardas municipais aguardam serem vacinados; baixas chegam a 12

2 comentários em “Covid-19: luto e dor pela perda dos familiares na pandemia

  1. Interessante a matéria.
    A realidade é que, a política no Brasil vem sempre em primeiro lugar… se esses nojentos tivessem negociado antes a vacina, muitas mortes teriam sido evitada. A Saúde pública nunca foi prioridade aqui no Brasil.
    Cada vida perdida, uma história e uma perda irreparável. Muito triste.

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