A vacina e os “fura-filas” sob o olhar do pensamento social brasileiro

Seja qual for a maneira, notamos que uma das características mais enfáticas em relação ao brasileiro é referente a sua capacidade de constituir vínculos afetivos por meio das relações sociais e utilizá-las de modo a burlar a lei. Isso se dá devido a outras marcas de nossa identidade que são a dificuldade de reconhecer os limites do público e do privado, bem como nossa pouca afeição às leis e a res pública como diria Frei Vicente de Salvador. Assim, se por um lado nos surpreendemos com as muitas formas de subversão, como no caso dos fura-fila na vacinação no Brasil, por outro, tendemos a banalizar e naturalizar essas atitudes, pois, conseguimos enxergá-las como marcas de nossa personalidade.

Varíola, vacina e as lições da História

“Estava iniciado no Ceará o serviço de vacinação animal. O mais difícil estava realizado. Era necessário captar a confiança do público ou antes mover os indiferentes a aceitarem o salutar preservativo, convencer os anti-vacionistas de sua obstinação no erro”, assim Rodolfo Teófilo descreveu o início da campanha de vacinação contra a varíola. As lições e as experiências da peste que assolou o estado no século XIX.

Não há vacina para os homicídios no Ceará

Em paralelo ao avanço da doença, o Ceará voltou a ser afligido por uma epidemia que teima em ser banida: a da violência letal. Após um ano com números em queda, os assassinatos aumentaram em 2020. Dados da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) revelam que 3.720 pessoas foram assassinadas até novembro. A taxa de homicídios do Ceará gira em torno de 40,4 por 100 mil habitantes. Se a alta registrada no começo do ano poderia ser atribuída ao motim da Polícia Militar, o recrudescimento dos casos no segundo semestre exige uma nova explicação.

Mortes, afastamentos e superação: como a Covid-19 afetou a Polícia Militar do Ceará

O balanço do período revela que 1.386 casos de Covid-19 foram confirmados na Polícia Militar do Ceará. Desse total, 13 policiais morreram. Dos 974 testes rápidos realizados, 336 deram positivo. Foram emitidos 2.328 atestados médicos e 4.988 isolamentos foram contabilizados. Dos policiais que se isolaram, 65,95% permaneceram até 14 dias longe de suas atividades diárias. A média de idade dos policiais afastados ficou em torno de 36 anos. A dor de cabeça foi o sintoma mais prevalente seguida de dor no corpo e tosse. A incidência dos sintomas variou conforme a faixa etária.

Se a violência é contagiosa, por que não a tratamos como uma epidemia?

Estudos que analisam a violência como um fenômeno com características semelhantes a uma epidemia são cada vez mais comuns. Haveria pelo menos três componentes semelhantes a uma doença contagiosa: aglomeração em pontos determinados, disseminação no espaço e no tempo e transmissão pessoa-a-pessoa. Vale ressaltar que não se trata de uma concepção biologizante da violência, mas do modo como ela se propaga a partir de uma prática apreendida em boa parte de forma inconsciente.