Varíola, vacina e as lições da História

Por Ricardo Moura

“Não há estado do Brasil que mais devesse cuidar da vacinação anti-variólica do que o Ceará. Basta dizer que a varíola é a companheira inseparável das secas e estas são por sua vez o mal congênito da terra cearense”. É com essa constatação que o farmacêutico Rodolfo Teófilo inicia seu livro “Varíola e vacinação no Ceará”, um relato sobre os danos causados pela doença no estado e a imensa luta para convencer (e obrigar) a população da época a se vacinar.

Vinda do Aracati, a varíola, doença infecciosa com sintomas semelhante à gripe e que pode causar irritações à pele, não tardou a chegar a Fortaleza em setembro de 1878, mês de calor intenso e seco. “No abarracamento de Pacatuba deram-se os primeiros casos, abarracamento este de grande população e situado a barlavento da capital”, relembra o farmacêutico.

Vale lembrar que, por causa da seca e da ausência de qualquer política pública que se estendesse até o Interior, Fortaleza parecia mais um campo de refugiados, com retirantes vindos de todos os cantos do Estado abrigados em condições sub-humanas. Por causa disso, as pessoas tinham de se “abarracar” em locais já conhecidos, como os abarracamentos do Pajeú e do Meireles.

“A população de Fortaleza podia-se calcular em 130 mil pessoas, das quais 110 mil eram retirantes, que acossados pela seca, para escapar à fome, haviam-se refugiado na capital da província. Desta grande massa de famintos, noventa e cinco por cento não eram vacinados”, assim Rodolfo Teófilo descreve a situação do Ceará em 1878, ano em que o estado foi afligido pela moléstia.

Entre setembro e dezembro daquele ano, a varíola ceifou 24.849 vidas em Fortaleza, cidade que há época contava com “pouco mais de cem mil almas”. Intensa letalidade de pouco mais de 25%. O número não leva em consideração os cadáveres cremados e as pessoas enterradas de forma clandestina nas cercanias da cidade. O caos se instalou sobre a capital.

“A confusão era geral e indescritível. O serviço da assistência pública era mal feito e não podia deixar se ser assim em vista das circunstâncias imprevistas que se deram. O governo havia contratado todos os médicos de Fortaleza, posto à disposição dos indigentes todas as farmácias da cidade, mas todas estas providências se anulavam em face da grandeza da epidemia”.

Páginas de um flagelo terrível são descritas pelo farmacêutico. A cidade vazia, a incapacidade do poder público de lidar com a doença, o espectro da morte rondando a todos: “Os médicos cuidavam apenas, trabalhando noite e dia, dos quatro a cinco mil enfermos recolhidos aos lazaretos; os outros em número muitíssimo superior se acabavam no mais completo abandono. Em dezembro a peste atingiu o período mais agudo. A tristeza e o luto estavam em todos os lares. O comércio completamente paralisado dava às ruas mais públicas a feição de uma terra abandonada”.

No começo de 1879, com a retomada do período chuvoso, o cenário de degradação se amenizou. “Todos os habitantes de Fortaleza viram cheios de satisfação findar-se este terribilíssimo ano, e animados esperavam uma era melhor”, relata Teófilo acerca do estado de ânimo da população após o período de maior mortandade já visto na Capital.

Passado o período mais agudo da propagação da doença, Fortaleza continuou a registrar casos esporádicos de varíola. A melhoria nas condições de higiene e a disseminação da vacina fizeram com que o quadro melhorasse sensivelmente. No entanto, a peste ainda incidia de forma inclemente nos subúrbios da capital, chamados à época de “areias” pelo fato de não contarem com calçamento.

As condições para a realização de uma vacinação em massa só se tornaram possíveis na virada do século, cabendo a Rodolfo Teófilo o papel de maior propagador. A campanha, contudo, não se daria sem resistência, movida por uma mentalidade refratária aos avanços da ciência. Em pleno século XX ainda havia quem se opusesse a tomar vacina.

“Estava iniciado no Ceará o serviço de vacinação animal. O mais difícil estava realizado. Era necessário captar a confiança do público ou antes mover os indiferentes a aceitarem o salutar preservativo, convencer os anti-vacionistas de sua obstinação no erro. Era difícil e espinhosa a propaganda. Eu não temia o povo, porém os ignorantes com rótulos de ilustrados”.

Com muito esforço e tenacidade, Rodolfo Teófilo percorreu o Ceará inteiro vacinando e enfrentando os medos e as calúnias que grassavam acerca da prevenção. Em 1902, a varíola estava erradicada de Fortaleza, diminuindo drasticamente as chances de uma nova peste atacar a população como em 1878. O pior havia passado.

Dezembro de 2020. A seca já não é um destino fatal, embora os abarracamentos ainda existam sob a forma de assentamentos precários. Para debelar a pandemia do Coronavírus, os nossos Rodolfos Teófilos são milhares e incansáveis, atuando em um sistema de saúde universalizado e extremamente eficaz. A vacina virá mais dia menos dia. O pior irá passar. Feliz 2021.  

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