A vacina e os “fura-filas” sob o olhar do pensamento social brasileiro

Por Lucas Oliveira

Em meio à pior crise sanitária do último século, o Brasil se tornou uma má referência quando o assunto é o controle da pandemia do novo coronavírus. Essa má administração vai desde a inércia do governo federal que, num primeiro momento, minimizou a ameaça do vírus, à falta de um plano de contenção que pudesse reduzir a contaminação e salvar o máximo de vidas possíveis. Num segundo momento, temos uma postura negacionista do governo pondo em xeque não só a importância da vacinação quanto sua eficácia no tratamento da doença. Por fim, chegada a vacina, nos deparamos com outro dilema que são os chamados “fura-fila”, ou seja, indivíduos que não pertencem aos grupos prioritários, mas que têm conseguido ter acesso à vacina por meios indevidos.

Diante desse contexto que tem sido veiculado não só por meio das mídias físicas como também as digitais é comum percebermos a indignação das pessoas em meio ao atual cenário, que conduz a questionamentos acerca das motivações que levam determinados sujeitos a burlarem a lei, e, portanto, ferirem o pacto civilizatório, colocando-se acima dos valores coletivos. Dessa forma, recorremos aos clássicos da história e sociologia brasileira com objetivo de aprofundarmos nossa análise, nos permitindo ter um melhor entendimento da atual conjuntura.

De modo a endossarmos nossa argumentação faremos uso de dois conceitos que compõem o arcabouço teórico das áreas mencionadas que são a cordialidade presente na obra Raízes do Brasil do sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda, além dos conceitos de jeitinho e malandragem que se somam à velha máxima você sabe com quem tá falando?, cujos termos se fazem presente nas obras do antropólogo Roberto DaMatta.

Ao tratar da cordialidade como uma característica de nosso povo, Sérgio Buarque de Holanda tenta mostrar que o brasileiro atua socialmente tentando estabelecer vínculos e que esses, em algum momento, poderiam ser utilizados de modo proveitoso por esse sujeito. Assim, a cordialidade é uma forma velada de obter algum ganho, e isso incluiria driblar a lei, por que não? Afinal, no mesmo capítulo em que trata da questão da cordialidade, o autor nos mostra como temos uma clara dificuldade em distinguirmos o público do privado, fenômeno decorrente das relações familiares e de compadrio que são formadas por laços afetivos que se estendem do âmbito familiar para o público sem que haja uma clara distinção desses espaços. Diante disso e somada à pouca apreciação que o brasileiro tem em relação à rigidez das instituições temos o cenário perfeito para que as regras sociais colocadas pelas instituições sociais não sejam respeitadas, e, portanto, violadas. 

Seguindo essa linha de raciocínio, o professor Roberto DaMatta apresenta no capítulo sétimo de sua obra O que faz o brasil, Brasil? traços da identidade do povo brasileiro que são o “jeitinho” e a “malandragem”. Segundo o autor, diante de uma sociedade desigual e hierarquizada, o brasileiro oscila num dilema entre a lei e a necessidade de satisfazer suas vontades, mesmo que tal atitude vá de encontro às normas do bom senso e da coletividade. Assim, oscilando entre o que é permitido e o que não é, temos o jeitinho e a malandragem que são formas de mediar a lei e sua vontade. Com isso, unem-se o “pode” e o “não pode” de modo que esse processo visivelmente contraditório permita ao indivíduo tirar proveito de uma situação. No entanto, quando o jeitinho e a malandragem que, de acordo com o autor, são formas pacíficas de resolver os impasses cotidianos, recorre-se à lógica autoritária por meio da frase você sabe com quem tá falando? Isso posto, as duas lógicas descritas são como faces da mesma moeda, seja de modo harmonioso, seja de maneira conflituosa, ambas têm para o indivíduo a mesma prestabilidade que é driblar a lei, mesmo que tal atitude vá de encontro aos valores morais da coletividade.

Destarte, podemos agora utilizar os conceitos acima mencionados na tentativa de explicar e melhor compreender o fenômeno dos “fura-fila”. Mesmo antes de a vacina chegar ao Brasil, foi elaborado um plano nacional de vacinação que tinha como finalidade, dentre outras questões, estabelecer a ordem prioritária dos que seriam vacinados. Assim, a primeira fase do processo iria atender aos profissionais da saúde que estão na linha de frente no combate à pandemia, os idosos acima de sessenta e cinco anos, grupos indígenas entre outros. Porém, como já dito, alguns, aproveitando-se de sua posição ou por meio de jeitinhos, algumas pessoas burlaram a lei, sem que se enquadrassem nos critérios estabelecidos pelo programa de vacinação. Dentre os exemplos que podemos mencionar temos duas irmãs no Amazonas oriundas de uma família abastada na região que tiveram seus registros publicados no diário oficial do município dias antes do período de vacinação. Vários são os exemplos noticiados de pessoas que usam de seus artifícios, seja a cordialidade velada, o jeitinho, malandragem ou a autoridade como no caso dos membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e Superior Tribunal de Justiça (STJ) que, por meio de ofícios, requeriam da Fiocruz prioridade na vacinação.

Seja qual for a maneira, notamos que uma das características mais enfáticas em relação ao brasileiro é referente a sua capacidade de constituir vínculos afetivos por meio das relações sociais e utilizá-las de modo a burlar a lei. Isso se dá devido a outras marcas de nossa identidade que são a dificuldade de reconhecer os limites do público e do privado, bem como nossa pouca afeição às leis e a res pública como diria Frei Vicente de Salvador. Assim, se por um lado nos surpreendemos com as muitas formas de subversão, como no caso dos fura-fila na vacinação no Brasil, por outro, tendemos a banalizar e naturalizar essas atitudes, pois, conseguimos enxergá-las como marcas de nossa personalidade. Por fim, e conforme mencionamos no início de nossa argumentação, o presente texto não visava esboçar uma resposta estanque e reducionista para a questão em destaque, mas, fornecer uma linha de raciocínio que nos permitisse por meio dos clássicos da história e sociologia brasileira melhor compreender uma das muitas facetas que compõem o processo de vacinação em nosso país ligada à figura dos fura-fila.

Lucas Oliveira

Cientista social e graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Membro do Laboratório Conflitualidade e Violência (Covio), da UECE.

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