Lentidão e falta de amparo às vítimas são características em comum nos casos de letalidade policial

Movimentos da sociedade civil se organizam em busca de Justiça nos casos envolvendo mortes por intervenção policial. O caminho, no entanto, é árduo. Falta de assistência e lentidão nos processos judiciais são um fardo para quem perdeu um ente familiar pelas mãos do Estado. Esta é a segunda reportagem da série “Números da letalidade policial em Fortaleza

Por Dayanne Borges

A distância entre a morte, a investigação do ocorrido e a responsabilização ainda é muito grande quando se trata de mortes por intervenção policial. Familiares que perderam seus filhos em ações desastrosas ou intencionais da polícia têm um longo percurso a seguir na busca pela punição dos responsáveis. Nos últimos anos, movimentos liderados por mães ganharam protagonismo ao colocar a letalidade policial como pauta no debate dos direitos humanos no Ceará.  

“Eu perdi meu filho, então comecei a luta”. A declaração é de Edna Carla Souza Cavalcante, mãe de Álef Souza Cavalcante, de 17 anos, uma das onze pessoas assassinadas por policiais na ação criminosa que ficou conhecida como Chacina do Curió. Motivada por uma retaliação à morte de um policial militar, uma série de ataques foram realizados bairros Alagadiço Novo, Curió, Messejana e São Miguel entre os dias 11 e 12 de novembro de 2015. As vítimas foram escolhidas a esmo. Além dos onze mortos, sete pessoas ficaram feridas.   

Desde que perdeu seu filho na chacina, Edna Carla vem se dedicando aos movimentos “Mães do Curió” e “Mães da Periferia de Vítima por Violência Policial do Estado do Ceará”. Seu ativismo é voltado contra a violência que atinge jovens pobres e negros, afirma: “O Estado mata todas as horas, o Estado mata todos os dias, nós não podemos deixar isso acontecer”. 

Álef Souza, de 17 anos, sonhava em seguir a carreira militar

A transformação do luto em luta ocorreu em março de 2016, data em que Álef Souza completaria 18 anos. Um dos planos do jovem para o futuro era se alistar no Exército e seguir a carreira militar. Foi a partir de uma viagem para o Rio de Janeiro, onde pode conhecer a experiências de outras mães que perderam seus filhos para a violência policial, que Edna Carla organizou o coletivo “Mães do Curió” com as outras 10 mães das vítimas.

A “Mães da Periferia de Vítima por Violência Policial do Estado do Ceará”, por sua vez, é um coletivo que abrange todo Ceará. Esse movimento é unificação da luta de mães que buscavam por justiça sem direcionamento devido. No projeto, existem assistência psicológica, curso de políticas públicas, com certificação e prestação do trabalho jurídico.

Livro cobra Estado sobre chacina

O Ministério Público Estadual do Ceará (MPCE) identificou a participação de 45 policiais militares na chacina. Desse total, 44 PMs foram denunciados: 34 deverão ser levados a júri popular, enquanto 10 foram declarados pela Justiça como impronunciados, haja vista não haver provas suficientes para que sejam julgados. No mês que vem, o processo completa seis anos sem que ainda tenha sido julgado. Este ano será lançado um livro sobre a chacina, cujo lançamento está previsto para 11 de novembro. A publicação trará cobranças ao Estado por suas responsabilidades sobre o caso.

Dois anos à espera de Justiça

Juan Ferreira lutava Muay Thai e tinha o sonho de trabalhar como socorrista

O dia 13 setembro de 2021 marca os dois anos da morte do adolescente Juan Ferreira dos Santos, de 14 anos, vítima de intervenção policial. O menino estava próximo de sua casa, na Praça do Mirante, no Vicente Pinzón, quando a polícia dispersou um grupo de pessoas a tiro e ele acabou sendo baleado e morto. Tânia Brito, mãe de Juan, relata que o filho era muito ativo e cheio de expectativas: “Ele praticava Muay Thai e sonhava em ser um grande lutador. Também queria ser socorrista. Seu sonho era me proporcionar uma vida melhor”.

Em junho deste ano, uma reconstituição sobre o ocorrido foi realizada, haja vista o conflito de versões entre a polícia e os moradores. “Sigo na minha luta para que o policial pague na justiça pela vida do meu filho. Minha vida não é a mesma”, afirma a mãe do adolescente.

Ao falar dos impactos em sua vida após a morte do Juan, Tânia Brito apresenta uma voz trêmula e uma respiração curta: “Eu choro muito. Eu não gosto de sair de casa. Eu não consegui enterrar meu filho. Eu não consigo mais trabalhar fora, não me sinto psicologicamente preparada, meu sofrimento é muito grande.”  Ela se queixa, ainda, de não ter recebido nenhum apoio do Estado.

Sobre a série “Números da letalidade policial em Fortaleza”

O Blog Escrivaninha obteve com exclusividade os números sobre letalidade policial em Fortaleza. De janeiro de 2020 a junho de 2021, 81 pessoas foram mortas em decorrência de intervenção policial. Desse total, todos eram do sexo masculino e 87% dos mortos tinham entre 15 e 29 anos, ou seja, eram jovens, conforme a definição do Estatuto da Juventude. As informações sobre letalidade policial disponibilizadas, contudo, apresentam subnotificação em relação à raça das vítimas: 71,6% das mortes por intervenção policial não possuem identificação racial. Do total de 81 pessoas mortas pela polícia, somente 22 tiveram a indicação da cor da pele: 20 foram classificadas como pardas (25,9%), uma como preta (1,2%) e outra como branca (1,2%). Segundo os números oficiais, a mesma quantidade de homens brancos e negros foram mortos pela polícia em Fortaleza no período. Para ler a reportagem completa, acesse

Reportagem de quinta: “O Mapa da letalidade policial em Fortaleza”

Esta reportagem foi publicada no âmbito do Programa de Jornalismo de Dados de Segurança Pública oferecido pelo Instituto Sou da Paz, do qual o Blog Escrivaninha e a repórter Dayanne Borges participaram.

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