Guerra é coisa de “macho”

Por Jean Pierre

Pensar a relação entre guerra e Segurança Pública é o objetivo desta coluna. Num primeiro texto, aludimos à retórica e prática da guerra na Segurança Pública na qual nos fizemos várias perguntas norteadoras desta relação a serem respondidas com o tempo.
Depois, foram analisados a partir de comentários ao primeiro texto, alguns exemplos desta retórica e prática. No último texto, sobre as diferentes justificativas da guerra, começamos a pensar mais seriamente esta relação ao pensarmos uma “guerra por vir” que orienta as ações de Segurança Pública. E no texto a seguir, focamos nossa análise num aspecto que atravessa todas estas justificativas: a representação do homem como “macho”.

Não importa quais as justificativas, guerra é coisa de macho. Ao se dizer isso não se exclui a possibilidade de mulheres participarem de guerras ou serem tão guerreiras quanto os homens. Por mais que se defenda um empoderamento feminino na guerra ou segurança pública, há uma submissão ao macho, valor que representa a defesa da masculinidade a partir de um direito natural, isto é, animal, que o homem tem de lutar pelas fêmeas, bem como de dar e segurança a elas defendendo-as de outros machos. Em contrapartida, defendendo o seu direito natural sobre elas que não ousam desafiá-lo mesmo em maior quantidade.

Do direito natural de disputar a fêmea num combate mortal ao direito moral, cultural ou humano não há muita diferença, a não ser pelos valores criados para justificar a violência não só do macho alfa como de toda a sociedade de amigos ou irmãos, democrática ou não, numa guerra. Neste sentido, a traição de Helena é uma razão justa ou justificativa muito mais plausível para a guerra dos gregos contra Troia do que a pilhagem econômica, pois um grego não saquearia uma cidade como um bárbaro. Por mais que os gregos tivessem em vista bens econômicos, a nobreza aristocrática guerreira, a elite da época, precisava de uma razão maior, no caso, a honra como valor de um homem no que é perante os outros homens o qual deve ser respeitado, bem como aquilo que é seu, que possui um valor para si como o da sua mulher, considerado seu bem. Quando Menelau é traído por Helena e Aquiles desiste da guerra porque Agamemnon lhe tira Criseida como espólio de guerra, percebe-se como a honra é a razão justa ou a justificativa mais plausível para a guerra, pois a pilhagem não é um valor nobre.

É para defender sua honra que homens se unem ainda hoje e podemos considerá-la senão como um princípio básico da segurança pública, no caso, dos homens em relação a si mesmos, e a guerra, a batalha, a luta é senão o meio de defendê-la. Pode-se dizer que a mulher também tem sua honra, mas nas sociedades tradicionais ainda atuais, a honra feminina está diretamente relacionada a do homem e é para defender a deste que ela defende a sua, devendo fechar as pernas num estupro para honrarem o marido ou serem honradas pelos homens. Numa família e sociedade tradicional, a mulher não pode desonrar o homem seja nas roupas ou atitudes, causar conflito com o marido e entre os homens, e estes devem recorrer ao direito de honrar as calças pela violência para demonstrarem que são machos quando elas ou outros os desonram. Toda mulher, concordando ou discordando da família e sociedade tradicional, sabe que sua segurança e a de outros está em risco e pode haver uma guerra de facções ou de Estados por “sua” causa segundo esta concepção tradicional.

Que mulheres possam demonstrar algum poder e promover a guerra entre os homens por simples regojizo como se fantasia algumas vezes não diminui o fato de que qualquer diminuição dos homens como machos é uma justificativa para a violência e guerra, para se tornarem guerreiros, o símbolo primitivo do homem macho na antiguidade, ou se tornarem militares fardados, na modernidade. Toda uma justificativa tradicional machista de que mulheres gostam de homem macho, guerreiro ou militar, advém desse inconsciente coletivo do homem macho que serve como princípio para a violência em sua defesa numa guerra, mas também para a Segurança Pública militarizada, bem como para a não presença de mulheres e LGBTTs na Segurança Pública ou como militares.

Uma mulher ou qualquer diversidade sexual pode ser guerreira, militar, defender a nação, a pátria, a segurança pública, tanto quanto os homens, mas não são machos e desonram a corporação em sua masculinidade. Por isso se defende tradicionalmente somente a presença de homens na segurança pública, pois, assim como a guerra, a segurança pública é coisa de macho. Oficialmente, óbvio, se diz que não, mas a questão importante é: quais valores justificariam a guerra e a segurança pública como coisa de fêmea, defesa de uma feminilidade ou diversidade sexual? E o que muda na guerra e segurança pública com isto?

O direito de fazer coisas de macho, de ser tão macho quanto os próprios machos é um dos valores que justificam o ingresso de mulheres na guerra e segurança pública, mas não modifica a sociedade tradicional na qual só o homem é macho naturalmente. A questão de gênero deve ser deslocada do que o homem faz para o que o homem não faz, principalmente em relação à honra. Por exemplo, mulheres e LGBTTs podem defender a honra de seus corpos e sexualidade sem que isto se relacione a defesa da honra do macho e a guerra, caso aconteça, não seria motivo para estuprar mulheres e homossexuais como espólio de guerra ou matá-los sem defesa. Talvez assim se evitasse a morte de uma mulher na guerra por 36 tiros como aconteceu na guerra civil entre milícias do Moçambique e o Estado islâmico ou que mulheres fossem decapitadas por venderem drogas no espaço dos machos de uma facção, ou ainda, se evitar a morte de pessoas trans como acontece no Ceará em 2020 vítimas de homofobia por se ter alguém para defendê-los na Segurança Pública que não é um homem macho.

Sobre a imagem. Povo cuja guerra era a razão própria razão de ser como nação, os espartanos, em sua visão idealizada, representam um ideal de virilidade que volta e meia é retomado seja pelos meios de comunicação, pela arte ou até mesmo por grupos políticos.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE. Escreve quinzenalmente no Blog Escrivaninha.

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