Três exemplos de retórica e prática de guerra na segurança pública

Por Jean Pierre

Três comentários ao texto publicado anteriormente nesta coluna servem de exemplo do porquê dela, cujo objetivo é incentivar o pensamento sobre a retórica e prática de guerra na Segurança Pública. O primeiro diz que filósofos e sociólogos devem passar a “frequentar periferias para na prática e de forma real fazerem suas validações!” O segundo afirma que “Retórico é imaginar a segurança pública do Brasil e não comparar com uma guerra. Filósofos não vão todos os dias pras ruas enfrentar bandidos armados. Já chega de hipocrisia nesse país.” Por fim, um terceiro questiona se não é espúria a relação entre guerra e Segurança Pública, a saber, se não é falso, desonesto, hipotético, ilegítimo fazer esta relação.
No que diz respeito aos dois primeiros comentários, eles são exemplos de como a retórica e prática da guerra está presente na Segurança Pública até mesmo nos comentários ao questionamento dela como se faz nestes textos. O objetivo é o conflito em ambos, opor combatentes, saber quem sabe mais sobre a realidade, ou ainda, quem enfrenta mais do que quem a realidade, e, claro, quem sofre mais com a realidade, quem é mais vítima na realidade. Ao se dirigirem em ambos os casos aos filósofos, demonstra-se que a oposição é ao pensamento filosófico motivado pela ideia tão antiga quanto atual de que os filósofos vivem fora da realidade e os outros vivem a realidade e que esta lhes pertence e dá a eles o direito de falar e pensar e não aos filósofos. Um gesto condizente com a retórica e prática da guerra que visa unicamente a ação e de que não se pode pensar a ação e a realidade, somente agir e viver na realidade e quem age e vive na realidade sabe (?) mais do que quem pensa a realidade.
Na retórica e na prática, uma guerra é motivada pela ação e não pelo pensamento, pela ação de guerrear e não de se evitar a guerra. Neste sentido, não há o que discordar dos dois comentários a não ser pelo fato de que a realidade de guerra em que se inserem e querem que os filósofos se insiram não é a que os filósofos querem, ou qualquer deseje numa guerra na periferia ou não. Pois, afinal, quem quer viver na guerra entre facções e de policiais militares contra elas como acontece nas periferias? Quem quer ficar enfrentando bandidos armados nas ruas como policiais militares ou adolescentes aspirantes a policiais militares arriscando sua vida e podendo matar inocentes? Quem não deseja viver fora desta realidade, numa sociedade sem guerra entre facções ou dos policiais com elas como pretendem os filósofos e como vivem muitos em bairros não periféricos onde a retórica da guerra existe, mas não a prática, apesar de existirem bandidos políticos e empresários? Enfim, por que o desejo de uma vida melhor nem que seja no pensamento como desejam os filósofos é tão ruim para algumas pessoas como as dos comentários-exemplos?
Se há o questionamento da validade dos filósofos falarem de uma realidade que não conhecem, é porque realmente o objetivo dos filósofos não é falar de modo “válido” da realidade de guerra atual confirmando o senso comum ou enfrentar bandidos armados na realidade. Isso é o oposto do que pretendem, pois não se busca validar na prática o pensamento de uma realidade de guerra na periferia ou enfrentar bandidos armados nela, mas desarmar o pensamento de que é preciso viver esta realidade de guerra ou enfrentá-la com armas para saber o que é a realidade ou que a realidade é de guerra e se deve se armar para ela. Não é esta realidade que o filósofo deseja e tão pouco deseja para alguém, e quem se opõe ao desejo de evitar a guerra na Segurança Pública se beneficia com ela econômica e politicamente.
Mas não seria espúria esta relação entre guerra e Segurança Pública?, questiona o terceiro comentário. Seria se não fosse o espúrio investimento no Ministério da Defesa maior do que o investimento na educação em 2021 e espúria a previsão de investimento na Segurança Pública no Ceará em 2025 também maior do que na Educação, tal como já acontece no Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em outras palavras, ao se gastar ou se pretender gastar mais em matar “bandidos” aumentando a taxa de homicídios por policiais militares do que evitando que pessoas se tornem bandidos ou crianças inocentes morram na guerra entre facções e policiais militares. Se na retórica e na prática não se gastasse mais em matar do que em educar para se ter Segurança Pública.
Neste sentido, na retórica e na prática, é para uma guerra que se investe na Segurança Pública do país e dos Estados, como se a segurança fosse sinônimo de guerra e não de paz, investindo-se bilhões em potência de matar em vez de potência de vida. Isto, com certeza, é o oposto do que buscam os filósofos investindo em educação e vida e não em morte e guerra, gastando dinheiro em livros e não em armas, ensinando as pessoas a pensarem e fazerem o bem e não o mal, filósofos que buscam viver fora da realidade de guerra em vez de dentro dela, isto é, em segurança publicamente. Por que é tão difícil pensar a vida em segurança pública? Pensemos sobre isso e continuemos a pensar em sair desta realidade retórica e prática de guerra na Segurança Pública.

Jean Pierre

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará – UECE, professor efetivo da Rede Estadual de Ensino do Ceará e pesquisador do Grupo de Pesquisa Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE. Escreve quinzenalmente no Blog Escrivaninha.

2 comentários em “Três exemplos de retórica e prática de guerra na segurança pública

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