Da pertença ao esquecimento: os desafios de viver no Poço da Draga

Cássia Vasconcelos, moradora do Poço da Draga, descreveu a ação da prefeitura como “violenta e desrespeitosa”. A moradora também descreveu as dificuldades que os moradores da comunidade vivem. Uma campanha movida nas redes sociais busca apurar a responsabilidade sobre a ação bem como ressarcir os atingidos pela desocupação.

Por Dayanne Borges

Nascida e criada no Poço da Draga, Cássia Vasconcelos, de 38 anos, revela ter uma relação afetiva com o local. A comerciante e administradora de empresas descreve seu pertencimento à comunidade: “Sou neta de portuário, os meus pais nasceram e cresceram na Draga, minha avó e meus irmãos moram aqui”. A mulher lista o amor e a gratidão como os sentimentos nutridos pelo lugar. “Trata-se de uma relação de pertencimento mesmo dessa terra, desse espaço. De gratidão por tudo que esse espaço pode contribuir na minha vida, haja vista eu ser oriunda de projeto social”, comenta.

Além do pertencimento, Cássia também afirma que a resistência é um sentimento inerente à sua localização. “É muito difícil ser da periferia de Fortaleza, porque a gente já nasce com alguns padrões estabelecidos. Por você estar dentro da comunidade e ser mulher e negra, as pessoas já ditam onde é o teu lugar, mas eu nunca aceitei esse tipo de definição” afirma.

Na última sexta-feira, dia 4, a Prefeitura de Fortaleza demoliu barracas dos comerciantes que trabalhavam no Poço da Draga. A ação foi realizada pela Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), com apoio da Guarda Municipal de Fortaleza (GMF) e da Polícia Militar do Ceará (PMCE). Cássia Vasconcelos avalia o ocorrido como um ato violento, agressivo, desrespeitoso e desumano. “Eu nunca pensei na minha vida que iria viver para ver aquela cena. De terror. Imagine você ir dormir e acordar com um trator na sua porta derrubando o seu sonho. Foi isso que aconteceu.”

De acordo com a moradora, trinta comerciantes, todos os moradores do Poço da Draga, tiveram seus empreendimentos derrubados, afetando a comunidade inteira, pois o sustento das famílias era obtido a partir da atividade de ambulante: “A agressividade com que eles vieram derrubando tudo sem ao menos deixar as pessoas retirarem os materiais, os insumos e todo o seu investimento de dentro das barracas é muito louco, sabe?”. Segundo Cássia, os comerciantes não retomaram suas atividades desde a demolição.

Os escombros das barracas são o resultado da ação da Prefeitura na última sexta. De acordo com o prefeito, as construções ocupavam um espaço de proteção ambiental

Uma campanha vem sendo realizada nas redes sociais por ativistas, lideranças e parlamentares para que a prefeitura seja responsabilizada pela ação e os moradores possam ser ressarcidos. A intenção é que haja uma compensação acerca dos danos materiais e psicológicos sofridos pela desocupação.

Para a moradora, a especulação imobiliária é um dos motivos dessa remoção ter acontecido: “Vivemos em uma área onde, na esquina da nossa casa, temos um aquário e na outra o Dragão do Mar e a Caixa Cultural. O sentimento que a gente tem é que o progresso está vindo e está afunilando a gente. Não somos contra o progresso. A gente só quer participar dele”.

Outro lado

Em seu perfil nas redes sociais, o prefeito Sarto Nogueira (PDT) se pronunciou sobre o fato: “Não há impedimento para essas pessoas exercerem atividades ali e, além disso, os pertences e mercadorias dos trabalhadores não foram apreendidos. No entanto, por se tratar de Área de Preservação Ambiental, construções irregulares não são permitidas ali. (…) Por fim, informo que estamos trabalhando num projeto de requalificação para urbanizar e regularizar aquela região tão cara à nossa cidade”.

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