Quem tem medo de Marielle Franco?

Rua do bairro Conjunto Esperança, em Fortaleza, que recebeu o nome da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em março de 2018, é alvo de vandalismo. A maioria das placas indicando a denominação da vida foram arrancadas. Para historiadores e moradores do bairro, a ação vai além do vandalismo comum, sendo resultado da intolerância política vivida nos tempos atuais. Os entrevistados criticam ainda a falta de maior participação da comunidade na tomada de decisão sobre o que ocorre no bairro.

Por Ricardo Moura

Em 25 de agosto de 2020, a então conhecida “Rua do Canal”, no bairro Conjunto Esperança, em Fortaleza, ganhou um novo nome, passando a se chamar rua Marielle Franco. O decreto legislativo que alterou a denominação foi assinado pelo presidente da Câmara Municipal de Fortaleza (CMF), vereador Antônio Henrique (PDT). Na ocasião, o vereador Guilherme Sampaio (PT), autor da proposta, disse à imprensa que a homenagem era uma demanda do povo fortalezense.

Com pouco mais de um ano da implementação do novo nome da via, contudo, o que seria uma homenagem se tornou um alvo de vandalismo. Das 16 placas afixadas nas esquinas da rua Marielle Franco, somente cinco permanecem nos muros. As demais foram arrancadas. No decorrer da produção deste artigo, mais duas placas foram retiradas, reduzindo o número a três.   

Marcas na parede mostram que a placa foi arrancada
Uma das três placas que ainda permanecem na via

Estudioso do assunto, o historiador e cineasta Luís Carlos Saldanha, morador do bairro, classifica o ato como uma ação que vai além do mero vandalismo. “Não é que o material foi mal colocado. A gente percebe que os parafusos foram bem parafusados com bucha nos quatros cantos da placa. Elas foram realmente arrancadas. Mas, neste caso, é muito mais do que vandalismo. É consequência da polarização política que o Brasil passa nos últimos anos. Arrancar a placa da Marielle Franco é como se fosse um ‘fetiche’, uma resposta ao ‘inimigo político’”, argumenta.

Fac-símile do decreto legislativo que criou a rua
Localização da rua no Google Maps

Saldanha também critica a falta de maior participação da comunidade no processo de escolha do nome da rua. Muitos moradores ainda não reconhecem a via pelo seu novo nome, preferindo chamá-la de rua do Canal, como era conhecida tradicionalmente. Perguntada sobre a retirada das placas do muro, uma dona de casa que varria a calçada do seu imóvel disse que não havia percebido que isso tinha acontecido. Ela só veio a tomar consciência do fato quando perguntada.

Limária Mouta, historiadora e autora de um livro sobre o bairro, afirma que o bairro, assim como todo conjunto habitacional, teve a sua estética e estrutura imposta pelo Estado. “As ruas e casas planejadas aos poucos foram assumindo os traços dos moradores, mas isso não aconteceu com os logradouros, principalmente no que se refere às nomenclaturas. Quando não há essa participação da população na escolha dos nomes e da construção dos espaços públicos, normalmente, temos uma não apropriação destes. A ideia de não pertencimento muitas vezes gera vandalismo dos espaços e equipamentos públicos, causando assim, a destruição do patrimônio público”, comenta.

O historiador acrescenta: “Nomear os locais públicos com nomes de pessoas ilustres tem seu valor, mas isso não pode ser algo que caia de paraquedas no bairro. Acredito que houve uma equipe técnica que avaliou as condições da rua, mas não houve maior participação da comunidade nesse processo. Não basta colocar o nome, é preciso conversar com a comunidade, porque é importante mudar e qual a importância da pessoa homenageada. Um exemplo disso é a avenida Silas Munguba, um nome de uma pessoa importante, mas as pessoas continuam chamando a via de Dedé Brasil”.

A rua Marielle Franco possui sentido leste-oeste, localizando-se entre a avenida do Contorno Oeste e a avenida Penetração Norte-Sul. Saldanha questiona, no entanto, a escolha da via para homenagear a vereadora. “Acredito que não passe de sete casas as que possuam sua frente voltada para a rua. Do outro lado, há apenas o canal, por si só, onde se coloca lixo e as pessoas fazem caminhada”, comenta.

Sobre Marielle Franco

Marielle Franco se formou em sociologia pela PUC-Rio, e fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua dissertação teve como tema: “UPP: a redução da favela a três letras”. Trabalhou em organizações da sociedade civil, coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), elegeu-se vereadora, onde se tornou presidente da Comissão da Mulher.

No dia 14 de março de 2018, Marielle foi assassinada em um atentado ao carro onde estava. O veículo foi atingido por 13 tiros. O motorista Anderson Pedro Gomes também foi morto na ação. Quase quatro anos depois, a investigação que apura o seu assassinato não foi concluída: a Justiça ainda não sabe quem matou a vereadora e, principalmente, quem mandou matá-la.

Crédito das imagens: Luís Carlos Saldanha, autor do perfil Centreiro, dedicado à memória histórica de Fortaleza.

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