Padres são hostilizados por fiéis da Paróquia da Paz em grupos de Whatsapp

As ações de intolerância contra o sacerdote que criticou o presidente Jair Bolsonaro ganharam novos capítulos esta semana. Mensagens veiculadas no Whatsapp trazem acusações pessoais ao padre Lino Allegri e também ao pároco, o padre Oliveira Rodrigues. Em um dos trechos, há menção a uma nova intervenção na celebração do próximo domingo. As postagens foram feitas dois dias após um militar reformado ter sido expulso da igreja por tentar interromper a missa dominical

Por Dayanne Borges e Ricardo Moura

Circularam em um grupo de whatsapp de fiéis da Paróquia da Paz, na Aldeota, mensagens que hostilizavam tanto o padre Lino Allegri quanto o pároco Oliveira Braga Rodrigues. O conteúdo foi publicado dois dias após o incidente ocorrido no último domingo, dia 11, quando um militar da reserva foi expulso após interromper a celebração dominical. Na ocasião, um texto de desagravo ao padre Lino estava sendo lido por pessoas próximas ao sacerdote.

Em uma das mensagens às quais o Blog Escrivaninha teve acesso, há críticas a uma suposta “infiltração comunista” na paróquia e ameaça de invasão à igreja no próximo domingo, dia 18, no exato momento em que o padre Lino celebraria a missa. O trecho é o que segue:

“Ouvi dizer que domingo a turma de direita vai fechar a igreja da paz. Vão lotar todos os possíveis lugares. E se tiver esquerdopatas querendo mandar por lá o pau vai quebrar pra valer. A turma católica terá cobertura que ficará do lado de fora disfarçada e entrará na hora H. A culpa será do arcebispo que está inerte, vendo tudo acontecer sem adotar, adrede, as providências necessárias”.

Prints da mensagens. As ofensas pessoais foram cobertas por uma tarja

Conforme o Blog Escrivaninha apurou, o religioso pretendia estar à frente da celebração no próximo domingo a despeito das ameaças, mas houve uma recomendação oriunda de instâncias superiores para ele que não realizasse a missa. Em uma mensagem no whatsapp, uma paroquiana, que é apontada como uma das articuladoras do ataque e cujo nome será preservado, escreve: “Só avisando que Padre Lino não vai celebrar missa domingo, razão pela qual não realizaremos a manifestação programada”.

Em outra postagem, um membro da paróquia prega a realização de um boicote aos sacerdotes como forma de pressioná-los. A mensagem contém graves acusações à integridade pessoal do pároco que não serão reproduzidas neste espaço.

“Pessoal, o que devemos fazer é boicotar a Paróquia da Paz infelizmente. Pois o que está acontecendo é uma falta de RESPEITO a Igreja de Jesus Cristo. O melhor é deixarmos de ir a missa na Paróquia da Paz, todos os Padres de lá são petistas e comunistas sob o comando”.

Print mensagem pregando o boicote. As ofensas foram cobertas pela tarja

Uma carta que também circula nas redes sociais foi enviada ao arcebispo Dom José Antônio Aparecido Tosi Marques e à Nunciatura Apostólica do Brasil pedindo que a arquidiocese se posicione frente “à implantação e doutrinação marxista/socialista/comunista que tem levado aos altares uma imposição político partidária”.

Ainda segundo o documento, os púlpitos estariam “sendo convertidos em palanques eleitorais, sanitários ou epicentros dos interesses sociopolíticos de poucos em detrimento ao verdadeiro sentido do anúncio fiel e convicto do Evangelho que aos poucos vai sendo esvaziados, relativizados e gravemente adulterados em favor das ideologias emergentes em nossa Terra de Santa Cruz”. O restante da carta faz referência a “métodos gramscianos”, “revolução cultural”, “princípios marxistas da luta de classes” além de mencionar trecho de um texto do Cardeal Robert Sarah, conhecido por suas posições ultraconservadoras e que renunciou ao cargo de prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos em fevereiro. Vale ressaltar que “Terra de Santa Cruz” foi a denominação dada pelos portugueses ao Brasil ainda no século XVI.

Um membro de uma das pastorais da Paróquia da Paz lamentou a ausência do padre Lino na missa do próximo domingo: “A voz do profeta foi abafada e sua coragem algemada não pelo fundamentalismo religioso bolsonarista escancarado na elite hipócrita da Paróquia da Paz, mas sim pelo modelo de igreja consolidado na Arquidiocese de Fortaleza ao longo dos últimos 22 anos, em completa dissonância com Francisco, olhos vedados à leitura dos sinais dos tempos, uma igreja que não quer se enlamear. As pedras vão ter que falar e mil trilhas terão que nascer, senão daqui a outubro de 2022 Jesus vai novamente para o Gólgota”.

Reação e apoio

Membros do Igreja Em Saída, um movimento da ala progressista da Igreja Católica, estão se organizando para defender não só a pessoa física do Padre Lino, mas também os ideais defendidos pelo sacerdote, como a justiça social e o acolhimento das pessoas em condições de vulnerabilidade.

Rafael Silva, professor universitário e integrante do movimento, afirmou que, diante dessas ameaças, a reação da comunidade católica tem se dividido entre o medo e a esperança. “O medo se dá principalmente pelas ameaças contundentes, inclusive de agressões físicas, já a esperança é alimentada pela possibilidade de vencer e convencer a sociedade da verdadeira conduta cristã a ser seguida”, explica.   

A relação de amizade do professor com o padre Lino iniciou-se há quatro anos, quando o sacerdote, em conjunto com outros padres, implementou, em Fortaleza, o movimento liderado pelo Papa Francisco, o Igreja Em Saída, que crê em uma igreja mais popular, voltada para a comunidade.

Entenda o caso

Lino Allegri é um padre missionário italiano com 56 anos de vida presbiteral. No Brasil desde a década de 1970, o religioso possui diversas contribuições para a ação pastoral e eclesial na Igreja. Atuou nas comunidades de base desde o interior da Bahia, esteve presente nas pastorais sociais, na coordenação do Centro de Defesa e Promoção Direitos Humanos da Arquidiocese de Fortaleza e na Agência de Notícias Esperança (Anote). Atualmente está engajado na Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de Fortaleza.

No último dia 4, Allegri foi hostilizado por um grupo de fiéis minutos após o fim da celebração da missa de domingo. Em sua homilia, o sacerdote criticou o presidente Jair Bolsonaro pela forma como o Governo Federal vem se portando durante a pandemia da Covid-19, em que mais de 530 mil brasileiros foram mortas pela doença. Oito pessoas entraram na sacristia sem autorização e o repreenderam pelos comentários de forma agressiva e em tom de ameaça.

Allegri afirma ter sido vítima também de xenofobia. “Eles entraram na sacristia já bastante alterados, com tom de voz agressivo, me atacando. Disseram que não estavam de acordo com o que eu tinha falado em relação ao presidente da república, que ele é um cristão e um bom presidente, e que eu deveria rezar por ele”, disse o padre em entrevista ao OPOVO.

Há um inquérito tramitando no 2º Distrito Policial (Aldeota) que investiga a ocorrência de dois crimes: xenofobia e racismo. Este último se deve às ofensas sofridas por uma ministra da Eucaristia que tentou mediar a situação na hora.

No último domingo, dia 11, um homem interrompeu a celebração e teve de ser contido e expulso do local por fiéis. A ação ocorreu justamente no momento em que uma carta de apoio e solidariedade ao padre Lino estava sendo lida. Conforme o Blog Escrivaninha apurou, o homem já foi identificado. Trata-se de um militar da reserva cujo nome será preservado haja vista não haver nenhuma acusação formal contra ele.

De acordo com Rafael Ribeiro, advogado Criminalista e pós-graduando em Direito Penal e Processual Penal, o artigo 5º da Constituição Federal prevê o livre exercício do culto religioso, bem como o respeito à liturgia. “Isso se materializa no artigo 208 do Código Penal que considera crime a conduta de perturbar a cerimônia ou prática religiosa. Gritar de forma desrespeitosa certamente configura o crime”, explica.

Sobre a imagem. O print do vídeo publicado no Youtube mostra o momento exato em que os celebrantes da missa do último domingo são agredidos verbalmente por um apoiador do atual governo.

3 comentários em “Padres são hostilizados por fiéis da Paróquia da Paz em grupos de Whatsapp

  1. Nós somos um país livre para se expressar sobre qualquer assunto do nosso dia a dia e saber escutar qualquer afirmação de pessoas, sem agressões, violências ou críticas é sinal de democracia, respeito, cidadania para com o próximo. Viva a vida, democracia, a irmandade, fraternidade e a fé nos homens e mulheres boa vontade.

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