Violência das facções desafia profissionais da Saúde no Interior do Ceará

Ameaças, agressões e traumas fazem parte do cotidiano de profissionais da atenção básica. Como é possível promover saúde mental por meio dos equipamentos de saúde se os próprios profissionais se sentem vítimas da mesma violência que adoece seus pacientes? A psicóloga e antropóloga Alana Ávila aborda essa questão que teima em perpassar sua pesquisa do doutorado.

Por Alana Aragão Ávila

Logo nos primeiros minutos de conversa, Paulo (os nomes dos entrevistados são fictícios por questão de segurança) me fala sobre o episódio de violência do qual foi vítima enquanto desempenhava seu trabalho. Atuando como Agente Comunitário de Saúde (ACS) em uma localidade rural com menos de dois mil habitantes no Interior do Ceará, Paulo se viu rendido por assaltantes armados quando realizava uma visita domiciliar. Durante o relato, o agente assegurou que não levaram nada dele pois nunca sai para as visitas portando carteira ou celular, justamente por saber dos perigos que podem existir nos caminhos que percorre. O resultado do ocorrido, além de Paulo ter uma arma apontada para a cabeça, foi que a família que ele foi visitar, composta por dois idosos, resolveu se mudar da localidade. A ideia seria que na sede do município se correria menos riscos, mas não é bem isso que os relatos de outros profissionais sugerem.

Em uma cidade do interior do Ceará, cujo nome o Blog preserva, há tempos não se ouve falar em brigas de gangues. Ao contrário do que acontecia nos anos 90 e começo dos anos 2000, as ocorrências locais não são mais disputas entre traficantes de pequeno porte, tampouco se concentram em bairros estritamente periféricos e de baixa renda. Agora o falatório é em tom de voz baixo, com receio de ser ouvido por qualquer um: “as facções estão tomando de conta”. Com o crime organizado, vieram a insegurança e a violência que atravessam ambientes familiares, comunitários e os próprios equipamentos de saúde do município.

A mudança no tom de voz entre os profissionais de saúde é clara quando se entra na discussão do tema da violência e de como ela surge no ambiente de trabalho. Se em algum momento poderia se pensar que apenas profissionais da urgência ficariam cara a cara com os efeitos imediatos da violência, como no tratamento de pessoas vítimas de arma de fogo, percebe-se que os produtos da violência têm penetrado nos mais diversos níveis de atenção à saúde.

Frustração e naturalização da violência

Natan, formado em medicina há menos de um ano, relata a experiência de atender em um Centro de Saúde da Família (CSF) de um bairro predominantemente de classe popular. Diz que chega ao trabalho e já entra em sua sala pois não quer ficar sendo abordado pelos pacientes que se irritam com a demora na espera pelas consultas. A frustração da população, seja pela demora ou porque são encaminhados para a enfermeira ao invés de para o médico, acaba sendo descontada nos funcionários que ficam na recepção e na triagem da unidade de saúde. Não raro ocorrem discussões e os ânimos se inflamam.

Ainda assim, Natan não fica ileso dentro do consultório. Relatando a angústia de acompanhar demandas de pacientes com questões de saúde mental, o médico fala de pacientes que estão envolvidos em situações de violência, seja a de ter algum familiar jurado de morte por envolvimento com facções, seja através de mulheres que são espancadas e violentadas sexualmente pelos companheiros após os agressores realizarem uso de entorpecentes.

Não falamos de nomes, endereços ou coisas que o valha. A não identificação protege Natan, as vítimas e a mim. Natan reconhece os sinais e conta espantado da naturalidade com que as histórias chegam até sua sala: “Teve uma que levou uma martelada na cabeça e contou a história rindo, como se fosse uma coisa normal”. As formas do discurso naturalizado contrastam com os sintomas do sofrimento mental. Há casos que o corpo desmente a fala. Natan diz não ter sido preparado na faculdade para lidar com esse tipo de situação. O máximo que ele pode fazer é prescrever algum psicotrópico.

Ameaças e traumas são uma constante

Maria Lúcia atua há 13 anos como ACS em um território que mescla a classe média com a popular. Apesar de morar no local, ela não tem confiança para circular em qualquer espaço. Ainda assim, a proximidade com os moradores auxilia seu trabalho por formas não previstas na cartilha do SUS. Revela que antes de fazer visitas domiciliares ela liga para o usuário do CSF a fim de agendar o encontro. É preciso avisar que ela vai circular no território e receber uma autorização. Apesar do cuidado, revela que já recebeu ligações de terceiros avisando para que ela suspendesse a visita naquele dia. Tensões no bairro ou avisos do gênero “não vem porque o neto dela tá usando droga desde cedo na calçada”. Maria Lúcia não vai. Refaz os planos, mas sabe que outro dia ela vai ter de ir até lá. Existem metas de visitação a serem cumpridas.

Quando questionados sobre os casos de demanda por cuidado em saúde mental, os profissionais da saúde fazem coro ao enfatizar o aumento exponencial nos últimos anos. A violência, a pandemia, o desemprego, o empobrecimento… Entre os próprios profissionais existem casos de afastamento do trabalho ou mesmo início de acompanhamento psicológico e psiquiátrico medicamentoso por questões disparadas no próprio processo de trabalho.

Monique, cirurgiã-dentista em um CSF, conta de uma colega que após um caso de violência – um paciente tentou arrombar a porta da sala irritado pela espera – passou a realizar acompanhamento psicológico para lidar com o trauma. Sem apoio específico do município para o cuidado em saúde mental para os profissionais, a colega de Monique buscou atendimento em clínica particular. Ela tem de voltar diariamente ao local do trauma pois, ao contrário de colegas que passaram por situações parecidas, optou por não abandonar o contrato de trabalho.

Quem cuida dos cuidadores?

Em um momento em que se discute a retomada de uma agenda na saúde ancorada nos princípios da Reforma Psiquiátrica e na necessidade de suporte à saúde mental da população, cabe pensar ainda os limites da atuação dos profissionais da Atenção Básica nesta seara. Como é possível promover saúde mental por meio dos equipamentos de saúde se os próprios profissionais se sentem vítimas da mesma violência que adoece seus pacientes? Como descentralizar o cuidado, promovendo uma visão integral em saúde, se os profissionais quando vão fazer atividades dentro da comunidade correm o risco de ter que se esconder em casas alheias para fugir de tiroteios?

É preciso considerar que o cuidado em saúde tem de ser feito de forma integrada e que isso passa também por questões de segurança e lazer. De que adianta indicar a realização de atividades físicas ao ar livre se a circulação entre os bairros é limitada por conflitos fruto do tráfico? Como pensar promoção de saúde mental se os próprios promotores são ameaçados dentro do ambiente de trabalho?

Em seu discurso de posse como nova ministra da saúde, a Dra. Nísia Trindade lembrou que é preciso considerar os determinantes sociais e ambientais envolvidos no processo saúde-doença. Assim, se buscamos a expansão do cuidado em saúde mental, com o fortalecimento das redes de saúde para além dos grandes centros urbanos, é preciso considerar os efeitos da expansão da violência nos territórios. Sem um planejamento que envolva os diversos setores da governança – desde a cultura até à segurança – torna-se uma missão quase impossível a promoção de saúde mental para usuários e profissionais do SUS. Reconhecer o problema, ouvir os profissionais, conhecer os espaços: tudo é parte de uma agenda necessária para o fortalecimento não só do apoio em saúde mental, mas da promoção de uma cidadania plena para profissionais e usuários.

Imagens: Arquivo pessoal da autora.

Alana Aragão Ávila

Psicóloga CRP 12/21661. Doutoranda e mestra em Antropologia Social (UFSC). Bacharela em Psicologia (UFC). Pesquisadora vinculada ao Coletivo de Estudos em Ambientes, Percepções e Práticas (CANOA/UFSC). E-mail: alanaavila01@yahoo.com.br

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