BDSM: porque eu prefiro ser a “Puta de Uso do Dono” a ser o “Meu Amor”!

O Blog Escrivaninha abre espaço para um assunto tabu escrito por uma escritora e adepta do BDSM: as relações de poder e dominação entre homens e mulheres na esfera da sexualidade. Violência, sexo e poder. Três forças que movem a sociedade. Trata-se de um tema polêmico que transcende os nossos limites e que perpassa o que há de mais recôndito em nós. Ótima leitura!

Por Pagu Submissa

Difícil nos aproximarmos da metade do Século XXI, falarmos de BDSM (acrônimo para Bondage/ Disciplina, Dominação/ Submissão e Sadomasoquismo)  e não tocarmos no assunto gênero. Talvez, no século que se anuncia feminino, sobressaia-se mais no conjunto de práticas a posição subalterna que o Bottom, que em geral é uma mulher ou performa esse papel social, assume na relação de Dominação/ Submissão, do que a violência física ou psicológica consensualmente aceita pelas partes e que é a razão de prazer mútuo nessa subcultura.

Fato é que se nos concentrarmos na Literatura clássica ou contemporânea que aborda o tema – não está posta aqui a questão da qualidade do que é produzido e oferecido aos leitores – essa visão vai desde The Story of O até 50 Tons. Nas obras, há quase sempre uma mulher no papel de Bottom (exceção para Sacher-Masoch e o seu Vênus das Peles) e um homem no papel de Top. Essa mulher costuma apresentar  problemas psicológicos que apontam na direção da fragilidade emocional, baixa auto-estima e insegurança. Já no campo social, o desnível econômico entre Bottom e Top, que geralmente pende para o lado deste com a, senão riqueza absoluta, pelo menos o panorama do homem bem-sucedido, aquele que não sentirá dificuldade em exercer o papel do macho de provedor que paga de jantares a roupas, entre outros ofícios de sedução tão tradicionais e machistas quanto, mimetizando este elemento do  amor romântico para os enredos BDSMers.

Bom, a essa altura, vale dizer onde quero chegar com esse texto, que é: tire o seu fetiche da mercadoria do caminho que eu quero passar com a minha perversão. Em outras palavras: não considero uma D/S um comercial erótico de margarina em que se compra um produto, trocando-o por um ideal de vida, geralmente irreal e inalcançável (Rita Von Hunty, no Youtube, episódio sobre Adorno: https://bit.ly/3pP8s5m). Ou pelo menos não vejo que deva ser dessa forma porque isso seria repetir toda uma estrutura que é reforçadora daquilo que o BDSM nega, a saber, o amor romântico e idealizado como padrão único de relacionamento e afeto.

Avalio aqui além: rever esse modelo é essencial para a sobrevivência e prevalência das projeções de um século feminino e feminista para XXI. E não estou falando aqui de ser contra entregar flores para alguém, mas de criar para esse alguém uma ambiência que permita que ela (geralmente é ela) projete para a relação e o outro as suas expectativas mais narcísicas. Na D/S como na vida, não idealizar é mais que urgente e necessário.

Libertar-se desse modelo é primordial para a sociedade, mas sobremaneira importante para as mulheres, que são as maiores presas de tal ideologia. Elas são incitadas, ensinadas e consagradas a esse altar desde muito pequenas, num ideal de felicidade que nunca passa por estar sozinha, mas sempre com o outro e em função do outro.

Ora, o BDSM contemporâneo exige, sim, a superação desse papel feminino subalterno e dependente, embora faça parte do jogo performá-lo. Para estar numa D/S é preciso aceitar ser a cadela e a puta. Não a princesa idealizada, intocada e asséptica do amor romântico. Uma sessão passa por expelir e engolir fluidos corporais que fogem completamente aos padrões higienistas e de beleza estabelecidos nos Séculos XVIII e XIX: exige-se, sim, que a mulher esteja entregue, mas suada, surrada e arrasada pelas práticas aplicadas pelo Top.

Isso para não falar que o ideal de amor monogâmico cai por terra: é muito comum que uma “Casa”, ajuntamento ou unidade social  do BDSM, seja composto por um Top e várias Bottons. Ou um Top, uma Bottom e play partners. Fato é que basta uma olhada rápida para as construções narrativas que emergem dos sujeitos dessas práticas nas redes sociais próprias (as principais,a saber, são: Senhor Verdugo –  brasileiro – [senhorverdugo.com] e Fetlife – mundial – [fetlife.com]) para perceber que o assunto poligamia é bem mais comum, menos hipócrita e expressivo que nas redes sociais tradicionais, onde casamentos, nascimentos de filhos, aquisiçõe de PETs e as demais narrativas comuns ao reforço da fantasiosa monogamia da tradicional família pequeno-burguesa dão o tom do baile.

É claro que o sexismo ocupa estruturalmente a sociedade e se reproduz inclusive no meio BDSM. A Literatura sobre o tema, já citada aqui, é um exemplo. É também um mundo predominantemente branco, heteronormativo e Cis. Além de ser extremamente alimentado por uma rede de estímulo ao consumo de produtos próprios para as práticas. E há, ainda, sim, os ciúmes, crises em relacionamentos e sofrimento psíquico causado por estes nas D/S’s, ocasionando inclusive seu fim. Outra rápida olhada nas redes sociais próprias do meio também revela isso (o que não deixa de ser ótimo porque a vida precisa realmente seguir o baile e isso contribui para a desmistificação do amor eterno).

Isso não causa espanto, tendo em vista que os seres humanos que o praticam foram educados dentro da linguagem e com a presença dos mesmos ideais intersubjetivamente construídos a que estavam sujeitos os outros, baunilhas (que é como os praticantes chamam os que estão de fora desse mundo). No entanto, aqui é que fica difícil de analisar: a subjetividade do fetiche tende a subverter essa lógica em função da perversão de viver sob as ordens do outro ou ter outrem obedecendo plenamente a si. Não como esposa sacrossanta do recesso do lar, mas como empregada, serva, submissa,escrava e, os aqui já citados, cadela e puta.Importante ressaltar que todas essas palavras são consideradas, senão elogiosas, mas vantajosas para quem as recebe. Não há o peso moral sobre a puta que há no mundo da normatividade próprio à sociedade pequeno burguesa.

Assim é que prefiro, sim, ser a puta real e de uso de alguém ao “meu amor” idealizado e inviolado do romantismo. Porque, sim, eu tenho uma estrutura de personalidade perversa e sinto prazer na dor, sofrimento e humilhação. Mas, sobretudo, porque como uma mulher do meu tempo posso parafrasear Bertha Lutz: “Amai-vos e não vos apaixoneis”.

Pagu Submissa

Jornalista, fotógrafa, produtora de conteúdo digital, mãe, feminista e praticante de BDSM. Mas, é, antes de tudo, alguém que a cada dia aprende um pouco mais a não temer a própria sexualidade atravessada.

E-mail: preyprimal760@gmail.com

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